Como se sabe, a dificuldade inicial de quem escreve crônicas é encontrar um bom assunto, de qualquer natureza, que possa ser usado como tema central do texto ou como pano de fundo para uma história boa de se ler.
Isso é ainda mais complicado quando se quer escapar das pautas toscas que o presidente insiste em plantar, de forma sistemática para os brasileiros, emporcalhando páginas de jornais, ocupando tempo de noticiários de TV, abastecendo as redes, consumindo horas de convivência e muito mais. A obsessão desse homem é incurável e, sobretudo, muito chata.
Sorte minha é poder encontrar refúgio em temas familiares. É que a nossa casa, normalmente sossegada, está funcionando com capacidade máxima e em regime de colônia de férias. Minha cunhada do Rio veio passar o aniversário com a irmã, uma das filhas que moram em São Paulo veio comemorar a passagem de 44 invernos com os parentes diretos e amigos de antigamente. Trouxe dois filhos pequenos e uma sobrinha, nossa neta mais velha. Pra animar a festa, dois netos que vivem aqui vieram passar uma semana conosco. Tem gente dormindo no sofá do escritório.
É fácil imaginar que teria muito o que dizer sobre as preferências de cada um deles, contar que fiz um time de botão de mesa, consertei o arco que tinha feito e ensinei a descascar laranja na maquininha que comprei em Brasília faz décadas; que fizeram animados passeios ao Parque da Pedra da Cebola e à Praça das Ciências, que brincaram na Praia da Esquerda e remaram em dupla nos caiaques alugados na Curva da Jurema; que as netas me pedem pra levar pra pescar e que uma delas fez uma montanha de panquecas; que todos disputam celulares e tablets permanentemente e que levamos o menor de todos para fazer exame de sangue, tentando embromá-lo.
A danação foi ficar sabendo da reunião do presidente com embaixadores para pregar contra as urnas eletrônicas. Mesmo sem conhecer detalhes, me fez pensar que faz parte de uma estratégia política muito esperta, de propósitos ainda disfarçados.
Mesmo que as últimas medidas para distribuição de dinheiro público para populações carentes e políticos vorazes possam aumentar as intenções de voto, Bolsonaro já deve ter entendido que sua derrota nas urnas será acachapante.
Assim, muito melhor do que perder nos votos, seria conseguir ser impedido de participar das eleições por atitudes que, vedadas pela Constituição, regulam o processo eleitoral. Sem precisar explicar a derrota, ganharia para sempre a condição de mártir injustiçado por um bando de “comunistas”, o que lhe cairia muito bem.
Excluído da disputa, mas ainda na presidência, intensificaria as movimentações em favor da desestabilização política do país, visando consolidar a liderança de seus fiéis seguidores. Findo o mandato, restaria a ele agir como um animal indomável em busca da sobrevivência.