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Crônica

O pó nosso de cada dia

Como viajamos na semana passada, o carro passou bem uns cinco dias ao relento, em frente de casa. Sua lataria escura estava coberta por uma camada espessa e meio peguenta de sujeira

Públicado em 

17 nov 2023 às 00:30
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Pó
Pano sujo com pó preto na Ilha do Boi, em Vitória Crédito: Alvaro Abreu
No começo da semana, li, neste jornal, uma matéria bem completa sobre a situação dos sistemas de controle da poluição atmosférica da Grande Vitória. Gráficos apresentados demonstram que a “eficiência de todas as estações caiu a zero em cinco anos”. Parece exagero, mas é o que a repórter constatou. Se vivo, o Padre Conselheiro dos meus tempos de aluno do Salesiano diria em alto e bom som: “Vergonheira, sô!”
O bem-aventurado vento nordeste, sobretudo em tempos de ondas de calor insuportáveis, tem soprado na mesma intensidade das rajadas que a gente enfrentava, fazendo força e achando bom, nas regatas de snipes na Taça da Cidade de Vitória, nos setembros da vida de rapaz. Só que, desde os anos 1980, continua trazendo a sujeira da Ponta do Tubarão pra cá.
Pois, na noite de segunda-feira, recebemos a visita de amigos queridos. Achamos por bem aproveitar a fresca da varanda, lugar próprio para colocar em dia as conversas e as emoções de provar o queijo e a cachaça que trouxeram de Teófilo Otoni.
Depois de passar vergonha, pedi licença pra limpar cadeiras e o tampo da mesa esfregando tudo em três rodadas de pano úmido. Na primeira, o preto do pó se apresentou pleno, convicto, senhor poderoso da situação. A sujeira descarada era tanta e tão consistente, que dava a impressão de ser algo normal e aceito. No passado, dava orgulho a alguns desavisados.
Como viajamos na semana passada, o carro passou bem uns cinco dias ao relento, em frente de casa. Sua lataria escura estava coberta por uma camada espessa e meio peguenta de sujeira formada pelo pó que, depois de sair das pilhas de minério e das chaminés, ganha a maresia das águas e vem se instalar nas superfícies, nas gretas e nos pulmões.
Vida que segue, na segunda-feira fui com Carol buscar Yara, neta caçula, na creche. Pois a danadinha, muito atenta, nem bem entrou no banco de trás e foi logo dizendo que queria ir lavar o carro no posto, um programa infantil sensacional, que experimentou há pouco tempo.
Ela tinha adorado ficar dentro do carro vendo o homem jogar um jato de água fortíssimo na lataria e nos vidros, fazendo barulho. Espantada no começo, logo, logo se entusiasmou ao ver o jato de espuma de sabão ir cobrindo rapidamente o que estivesse fora do carro, inclusive o rapaz que apontava o bico da mangueira pra ela.
Antes mesmo da espuma escorrer totalmente pelos vidros, foi a vez de ver um pedaço grande de esponja sendo esfregado em círculos e riscos, deixando limpo por onde passava. Ela acompanhou com atenção o rapaz esfregar, com movimentos rápidos e certeiros, todas as janelas, o capô e partes da lataria. Terminado esse serviço, ela levou um baita susto quando surgiu novamente aquele jato d'água fortíssimo, que deixava tudo livre de sujeira e da espuma de sabão.
Quando o cenário externo voltou ao normal, a danada da menina fez biquinho de não gostou e carinha de quero mais. Avô esperto, tratei de dizer pra ela que lá em casa tinha mexerica azedinha esperando por nós.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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