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Crônica

Contando vantagens sobre ficar velho

Nesses últimos dias tive oportunidade de reviver ótimas emoções que fui incorporando ao longo da vida, depois do infarto que tive aos 46 anos, em pleno voo de gente que trabalha muito.

Publicado em 22 de Março de 2024 às 01:20

Públicado em 

22 mar 2024 às 01:20
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Isso de ir ficando velho tem lá suas vantagens. De alguma forma, elas compensam as reduções progressivas da audição e da potência muscular, e mais um tantão de coisas interessantes que vão deixando de acontecer.
Pois nesses últimos dias tive oportunidade de reviver ótimas emoções que fui incorporando ao longo da vida, depois do infarto que tive aos 46 anos, em pleno voo de gente que trabalha muito. Por imposição da fraqueza das pernas e braços, das emoções próprias de quem gerou emoções graves em muita gente próxima, me vi na obrigação de mudar, radicalmente, o rumo da minha vida.
Uma boa parte desse processo está registrado no livro “Crônica do meu primeiro infarto” que escrevi em 1995, a partir de um esforço de tentar entender o que havia acontecido antes, durante e depois de entrar e sair de clínicas e hospitais. As lembranças e reflexões foram surgindo durante caminhadas diárias, no ritmo possível, na areia da praia, sempre cortando bambu com minha faquinha. De banho tomado, sentava diante de um computador novinho que havia comprado com muitos dinheiros e que me foi trazido de avião lá do Rio de Janeiro.
Como o mundo dá muitas voltas, esse livro foi lido por um cardiologista que atuava na UTI do Hospital Madre de Deus, em Porto Alegre. Entusiasmado, me convidou para apresentar as muitas emoções sentidas para a diretoria do hospital, interessada em melhorar os serviços e procedimentos. Homem prático que sou, fiz uma lista do que senti, indicando os fatores que as provocaram. A conversa durou uma manhã inteira e, acredito, deve ter produzido bons resultados.
Foi essa lista com mais de 60 emoções, algumas positivas e outras nem tanto, que apresentei para uma turma de alunos de medicina da Ufes, no começo da semana retrasada. Posso garantir que foi uma conversa muito animada e animadora. Pra reforçar a argumentação, lembrei a eles que as emoções do paciente são fatores relevantes para sua saúde e, radicalizei, dizendo que morre-se de raiva, de medo, de tristeza, de susto e muito mais.
Na segunda-feira passada foi a vez de falar, lá na Biblioteca Estadual na Praia do Suá, sobre o meu trabalho com bambu, em sala cheia de gente querida e pessoas que ainda não conhecia. O título da conversa, “Fazer bem feito compensa”, me veio à cabeça ao ver impresso o livro “Viva a Produção Prazerosa”, que escrevi durante a pandemia e gerou muitas alegrias nas cinco festas de lançamento.
Os primeiros capítulos tratam do que gira em torno do fazer, incluindo lugar de trabalho, ferramentas, bambus, colheres e processos de produção. Os seguintes falam sobre a divulgação das colheres e seus desdobramentos, com fotografias, histórias emocionantes sobre encontros, viagens, exposições e oficinas, dentre o que se destaca um belíssimo livro sobre meu ofício de colhereiro, produzido por um renomado fotógrafo alemão para comemorar seus 50 anos de carreira.
Tentei demonstrar por A+B aos participantes que, além de todas as satisfações associadas ao trabalho com as mãos, está aquela provocada pela expressão do encantamento diante do que se produziu. Se a produção prazerosa vai desde a excitação que a pessoa sente ao definir o que pretende fazer até o sentimento de realização que surge ao completar cada etapa do trabalho e do orgulho por ter conseguido fazer algo bonito, simpático ou funcional, ela se completa -- e aqui mora a mais espetacular de todas as minhas satisfações -- no elogio sincero de pessoas insuspeitas ao ver o resultado do que se produziu.
Álvaro Abreu comparece no livro com “Vizinhança”, texto publicado em A Gazeta em 1º de maio de 2020
Alvaro Abreu  Crédito: Facebook
Tem sido esse encantamento o responsável por matérias em revistas, publicações nas redes, convites para exposições, oficinas e palestras, muitos presentes, incluindo ferramentas, aquarelas, geléias e pedaços de bambu. Diferentes formas de elogios expressam reconhecimento e, mais do que isso, atestam generosidade e, também, uma espécie de agradecimento. Digo isso, porque dá gosto de ver a alegria de uma pessoa, expressa por um gemido agudo e prolongado, ao pegar uma colher nas mãos e alisá-la.
Definitivamente, fazer bem feito compensa!

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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