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Trabalho

O que o tênis me ensinou sobre a Justiça do Trabalho

O Direito do Trabalho do século XXI não é para amadores. Exige a frieza de um juiz de linha, a estratégia de um campeão de Grand Slam e, acima de tudo, a coragem de quem não se curva quando a partida está desigual

Publicado em 01 de Julho de 2025 às 04:00

Públicado em 

01 jul 2025 às 04:00
Alberto Nemer Neto

Colunista

Alberto Nemer Neto

Algumas paixões não se explicam — elas simplesmente te pegam. Um dia você está lá, mergulhado em mais uma contestação, decifrando uma decisão judicial que parece escrita em sânscrito, enfrentando uma audiência que poderia virar roteiro de filme de suspense. E, no meio do caos, percebe: eu amo isso.
É curioso como esse sentimento se parece muito com o que vejo no tênis — um esporte que admiro justamente pela intensidade e pela solidão que carrega. Assim como na advocacia trabalhista, o tenista entra em quadra sozinho. Não tem treinador soprando instruções no ouvido, não tem parceiro para dividir a responsabilidade. Está só. Entre ele e a vitória, há técnica, preparo, estratégia e — principalmente — a arte de cair e levantar.
Pois bem, advogar na área trabalhista (especialmente do lado das empresas) não é diferente. A cada processo, uma nova batalha: narrativas que mudam como o vento, interpretações que desafiam a lógica e a legalidade, decisões que fazem você se perguntar se alguém leu a Constituição Federal. E, mesmo assim, voltamos ao jogo. Porque é isso que fazemos: jogamos. Com seriedade, com preparo, com garra, mas também com aquele frio na barriga de quem sabe que o placar pode virar a qualquer momento.
Não basta dominar a lei. É preciso ler o jogo. Antecipar o movimento do juiz, do advogado da outra parte, do Ministério Público do Trabalho. Saber quando atacar, quando recuar, quando segurar o fôlego e quando fechar um acordo. Cada petição é um saque bem calculado. Cada audiência, um match point mental. E não espere dias tranquilos — o jogo nunca acaba. Um processo termina, outro começa. Uma tese vence, outra nasce para te desafiar. Mas há beleza nisso tudo. E é justamente aí que mora a paixão.
"Como você aguenta tanta instabilidade e insegurança jurídica?" — perguntam, com um misto de curiosidade e incredulidade. A resposta é direta: porque ainda acredito no Direito do Trabalho como ele deveria ser, não como alguns insistem em distorcê-lo.
Acredito num Direito que equilibra, não que radicaliza. Que protege direitos sem inviabilizar negócios. Que premia quem anda de acordo com a lei, não o litígio infundado. E, acima de tudo, acredito numa Justiça do Trabalho que julga com base na lei — não em preferências ideológicas ou em agendas políticas disfarçadas de jurisprudência.
O problema não é a lei. Quando decisões ignoram contratos, desprezam provas ou inventam direitos que não existem no ordenamento jurídico, não estamos falando de Justiça, mas de ativismo judicial. E é exatamente contra isso que sigo lutando: por uma aplicação técnica, previsível e, sobretudo, honesta do Direito.
Porque o verdadeiro equilíbrio nas relações trabalhistas não vem de favorecer um lado em detrimento do outro, mas de garantir que as regras do jogo sejam claras, justas e, principalmente, cumpridas. Enquanto houver espaço para essa luta, eu sigo na quadra. De raquete na mão e processo na mesa.
Sei que nem sempre é assim. Conheço as decisões que parecem tiradas de um sorteio, o ativismo judicial que pune quem segue as regras, a insegurança que vira rotina. Mas continuo. Porque defender o que é certo não pode ser questão de conveniência — é questão de caráter.
Quadra de tênis
Quadra de tênis Crédito: Pixabay
Advogar nessa área exige estômago, paciência e uma dose generosa de teimosia. Mas, como no tênis, é o suor que molda o atleta. São os games mais difíceis que mostram do que você é feito. E, por mais absurdo que pareça, é justamente por isso que não troco essa vida por nada. A paixão, no fim das contas, também é uma forma de resistência.
E você, está preparado para encarar esse jogo? Porque o Direito do Trabalho do século XXI não é para amadores. Exige a frieza de um juiz de linha, a estratégia de um campeão de Grand Slam e, acima de tudo, a coragem de quem não se curva quando a partida está desigual.
Enquanto alguns ainda discutem ideologia, eu prefiro jogar pelas regras — com a lei como minha raquete e a Justiça como minha única torcida. O placar? Está sempre em aberto. E é justamente por isso que o próximo game pode ser o mais importante de todos. Vamos jogar?

Alberto Nemer Neto

Advogado trabalhista, coordenador do curso de especializacao em Direito do Trabalho da FDV e torcedor fervoroso do Botafogo. Neste espaco, oferece uma visao critica e abrangente para desmistificar os conceitos trabalhistas e promover um entendimento mais profundo das dinamicas legais que regem as relacoes de trabalho

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