O desequilíbrio fiscal é o principal problema macroeconômico que o Brasil tem. Disparado. E isso não é uma questão técnica, não estamos falando de um erro. A fala recente do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que a meta de déficit zero envolve um pacto entre os três poderes está totalmente correta. A construção de uma situação fiscal sólida é uma responsabilidade de toda a sociedade, portanto, os três poderes têm responsabilidade, assim como as três esferas federativas - União, Estados e municípios - têm responsabilidade. O que quero deixar claro é que não se trata de uma responsabilidade apenas do Executivo federal, a não existência de uma situação fiscal solvente sinaliza um problema grave na sociedade e impede um ciclo longo de crescimento econômico. Tem quem ache que produzindo crescimento se resolve o problema fiscal. Não é assim. A evidência brasileira é contrária. Nós só tivemos aceleração do crescimento quando primeiro arrumamos o problema fiscal. Foi assim nos oito anos do presidente Lula (2003 a 2010), por mais que diversos economistas petistas digam o contrário. Basta olhar os dados com o mínimo de cuidado. Saímos de um déficit fiscal estrutural do governo central, em 1997, de 0,5% do PIB para um superávit, em 2003, de 2,7% do PIB. Estes foram anos de baixo crescimento, mas foi construída uma situação fiscal sólida. Na sequência veio uma aceleração do crescimento. Infelizmente o período petista descuidou do fiscal. Começaram com um superávit de 2,7% e, em 2010, último ano do segundo mandato de Lula, ficou em 0,7%. Em 2013, já no governo Dilma Rousseff e antes do início da crise brasileira, tivemos um déficit de 0,2% do PIB. Ou seja, a piora fiscal não foi causada pela crise, ela precedeu a crise. Em 2014, antes do pior da crise, o déficit ficou em 1,8% do PIB. A partir daí é iniciada uma arrumação fiscal. Em 2022, a sociedade brasileira elege um governo de esquerda com o discurso de aumentar os gastos. Verdade seja dita que o presidente Jair Bolsonaro também tinha um discurso de aumentar gastos, afinal, ele disse que manteria o auxílio emergencial de R$ 600. Portanto, era necessário um aumento de gastos fruto da decisão da sociedade. Por isso, a emenda constitucional da transição foi aprovada. Eu acho que ela ficou um pouco salgada demais, daria para atender as necessidades da sociedade com menos, mas a decisão do Congresso, com grande apoio dos formadores de opinião, foi em outra direção. O déficit primário estrutural do governo central, no ano passado, ficou em 1,6% do PIB. Em 2022, o superávit tinha ficado em 0,2%. Houve uma piora considerável no primeiro ano do terceiro mandato de Lula. A situação fiscal preocupa e certamente o ministro Fernando Haddad está totalmente ciente do problema, tanto que tem feito os maiores esforços para consertar a situação e, com dificuldades imensas, tem sido bem-sucedido.