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Mudanças

Chegada de 2020 para além do desalento e das distopias

Dentre as boas novas de 2019 destaque para a realização do Sínodo para a Amazônia baseado em um longo processo de preparação com o necessário apoio do Papa Francisco

Publicado em 02 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

02 jan 2020 às 04:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi Arlindo Villaschi
Partida para 2020 Crédito: Divulgação

Na passagem de ano vale refletir sobre o que aconteceu em 2019 e o que se pode esperar para 2020. Uma forma de olhar para o acontecido é se entregar ao desalento com o ocorrido em 2019 em função dos retrocessos econômicos, sociais e políticos no mundo e no Brasil. Aqui, a opção é a de refletir sobre coisas boas acontecidas no ano que acaba de findar.

Dentre as boas novas de 2019 destaque para a realização do Sínodo para a Amazônia baseado em um longo processo de preparação com o necessário apoio do Papa Francisco. Sínodo mais do que justificado, por um lado, por tratar de forma específica de um território que ocupa área de nove países do continente americano e com papel fundamental para a biodiversidade mundial.

Por outro lado, riquezas retiradas e produzidas na Amazônia são negadas historicamente à maioria de seus habitantes, o que tem levado a crescentes desigualdades sociais, econômicas e políticas. De um lado, uma vastidão de riquezas florestais, minerais e outras. De outro, multidões inteiras de empobrecidos no campo e nas cidades, sem terra, sem moradia e acesso a direitos básicos.

Dentre as várias temáticas estudadas e aprofundadas no processo sinodal, está em pauta o "rosto dos povos da Amazônia". Povos de rica diversidade sociocultural e que na imensidão da geografia amazônica constituem territórios com modos de vida distintos. Povos da floresta; camponeses da terra firme - seringueiros, nativos e quilombolas; extrativistas e coletores sobrevivem do que a terra e a floresta lhes dá generosamente. Agricultores familiares que cultivam pequenas porções de terras com técnicas tradicionais e ancestrais praticam a agroecologia familiar enquanto um modo de vida que valoriza a interação entre si e a interdependência com a terra e a natureza.

Além dos povos, sua diversidade e suplementaridades, destaque para três temas debatidos no sínodo. O primeiro – o da água - justifica-se pela comprovação científica de que bacia do Rio Amazonas e as florestas tropicais que a circundam nutrem os solos e, através da reciclagem de umidade, regulam os ciclos da água, energia e carbono em nível planetário. O segundo - mudanças climáticas - emergiu em função de evidências de que aquelas de origem antropogênica têm na Amazônia a segunda área mais vulnerável do planeta, depois do Ártico. O terceiro – vida ameaçada, a de humanos na Amazônia. Vida ameaçada tanto pela destruição e exploração ambiental quanto pela violação sistemática de direitos de sua população. Direitos, por exemplo, dos povos originários a territórios e sua demarcação; à autodeterminação; e à consulta e ao consentimento prévios.

Se o Sínodo da Amazônia foi uma agenda de alento no árido ambiente político de 2019, para o ano que se inicia vale a esperança a partir do chamamento feito pelo papa a “… quem hoje está se formando e está iniciando a estudar e praticar uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda”. A se realizar de 26 a 28 de março de 20120, o evento intitulado "Economia de Francisco" acontecerá em Assis, Itália, terra de Santa Clara e São Francisco, pioneiros na crítica a regimes econômicos pautados na exclusão dos humanos mais pobres e dos demais seres viventes.

Vista de forma ampla, a convocação está voltada para mudar a economia atual e dar um espírito à economia do amanhã. Convocação dirigida a homens e mulheres de boa vontade que são chamados a se conhecerem melhor, a fazerem um pacto comum, e a promoverem um processo de mudança global na forma e no conteúdo da economia.

Para essa empreitada, a prioridade dada é para acadêmicos e empreendedores com menos de 35 anos de idade. Mesmo contando com a participação de detentores de Nobel em Economia como Muhammad Yunus e Amatya Sen, e outros que propugnam por uma outra economia, o chamamento para a "Economia de Assis" é para jovens capazes de escutar com o coração o grito sempre e cada vez mais angustiante da terra e dos pobres na busca de ajuda.

A agenda para o encontro em Assis prioriza a superação da surdez ao apelo para tomar consciência da gravidade dos problemas da economia mundial e, acima de tudo, pôr em prática um novo modelo econômico que reflita a urgência de todos entenderem a necessidade de revisão de esquemas mentais e morais. Revisão necessária para que cada um viva em conformidade com as exigências do bem comum. Bem comum desconsiderado, desprezado e debochado pelos poucos que se beneficiam da acumulação de riquezas conquistadas através da exploração do trabalho de gente mundo afora e da submissão da natureza aos interesses do ganho imediato.

Interesses de ganhos financeiros imediatos por poucos que coloca em risco a própria existência de boa parte da espécie humana.

Arlindo Villaschi

Arlindo Villaschi Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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