No coração da Serra, entre o vai e vem de carros e caminhões, a Avenida Eldes Scherrer de Souza é uma das principais ligações entre bairros e o polo industrial do município. Planejada para sustentar o crescimento econômico da cidade, ela faz parte da rotina de milhares de trabalhadores e do transporte de mercadorias. Desde 1989, a via leva o nome de um personagem que teve papel fundamental na expansão industrial da Serra. Mas quem foi Eldes Scherrer de Souza?
A antiga Avenida Civit recebeu oficialmente o novo nome por meio da Lei Municipal nº 1.345, sancionada em 24 de agosto de 1989 pelo então prefeito José Maria Miguel Feu Rosa. A homenagem reconhecia a atuação do arquiteto e urbanista no planejamento do Centro Industrial de Vitória (Civit), especialmente do Civit II, considerado um marco para o desenvolvimento econômico do município.
O início da transformação
Arquiteto por formação, Eldes Scherrer de Souza comandou a Superintendência de Projetos de Polarização Industrial (Suppin), autarquia estadual criada na década de 1970 para planejar e implantar polos industriais na Grande Vitória.
À frente do órgão, participou da estruturação do Centro Industrial de Vitória (Civit), conduzindo negociações e a comercialização de lotes destinados à instalação de empresas. A missão da autarquia era garantir infraestrutura e atrair investimentos para consolidar a industrialização do Espírito Santo.
Atualmente, a estrutura original da Suppin não existe mais. A Secretaria de Estado de Desenvolvimento (Sedes) informou que o órgão foi transformado na Subsecretaria de Polos Industriais (Supin) e, posteriormente, incorporado à Subsecretaria de Estado de Integração e Desenvolvimento Regional (Subdes).
O projeto do Civit II
Eldes Scherrer de Souza esteve à frente de um dos projetos mais importantes para a expansão industrial da Serra: o Civit II. O Centro Industrial da Grande Vitória era dividido em Civit I e Civit II, sendo este último a nova frente de ocupação industrial no município.
Os números ajudam a dimensionar a dimensão do projeto. O Centro Industrial de Vitória ocupava cerca de 6,4 milhões de metros quadrados, dos quais aproximadamente 2,2 milhões ainda estavam disponíveis para novas indústrias, principalmente nas áreas destinadas ao Civit II e ao Civit III. Os polos contavam com ruas pavimentadas, redes de água, esgoto e energia elétrica, infraestrutura que acompanhava a ocupação dos lotes industriais.
À época, a Suppin negociava lotes e anunciava a estruturação de áreas destinadas à instalação de empresas.
A reportagem conversou com o autor do projeto de lei que alterou o nome da antiga Avenida Civit para Avenida Eldes Scherrer de Souza. Trata-se do engenheiro civil João Luiz Castello Lopes Ribeiro, ex-secretário municipal de Obras da Serra e, posteriormente, vereador e presidente da Câmara Municipal.
Ele acompanhou de perto a implantação do Civit II e afirma que Eldes foi o responsável pelo projeto de parcelamento do solo que estruturou a área industrial. "Ele criou o projeto que organizou toda aquela área industrial. A avenida de acesso é larga, pensada para suportar o fluxo de caminhões e veículos pesados. O loteamento interno também foi muito bem planejado", relata.
Segundo João Luiz, cabia à Secretaria Municipal de Obras aprovar os projetos de loteamento da cidade, e foi dele a assinatura que autorizou a implantação do Civit II.
Anos depois, já como vereador, apresentou o projeto de lei que deu à antiga Avenida Civit o nome de Eldes Scherrer de Souza. "A homenagem foi um reconhecimento pela importância dele para o desenvolvimento da Serra. O Civit II mudou a história econômica do município", afirma.
É um reconhecimento pela importância de Eldes para o desenvolvimento da Serra. O Civit II mudou a história econômica da cidade
João Luiz Castello Lopes Ribeiro
Procurada pela reportagem, a Câmara Municipal da Serra também destacou que a mudança do nome da avenida teve como objetivo reconhecer a contribuição de Eldes Scherrer para o desenvolvimento industrial da cidade, especialmente pela atuação na Suppin e pela elaboração do projeto do Civit II.
"Não foi qualquer arquiteto"
O escritor e historiador Clério José Borges de Sant'Anna também atribui a Eldes papel decisivo na implantação do Civit II. "Não é qualquer arquiteto que planeja praticamente um bairro industrial inteiro. O Civit II se tornou um dos principais polos industriais da Serra", afirma.
Para o historiador, o impacto do projeto foi além do planejamento urbano. "O desenvolvimento industrial da Serra tem ligação direta com o Civit II. Hoje a cidade é a mais populosa do Espírito Santo, e esse processo de industrialização foi decisivo para esse crescimento."
Segundo Clério, a implantação do polo também impulsionou a arrecadação do município por meio do ICMS gerado pelas indústrias instaladas na região. "A Suppin era um órgão estratégico. Eldes Scherrer estava à frente de decisões que influenciavam diretamente a economia capixaba", destaca.
Mudança no noticiário e desfecho trágico
Durante boa parte da década de 1980, o nome de Eldes Scherrer de Souza aparecia no noticiário associado à expansão industrial do Espírito Santo. As reportagens destacavam a implantação de novos polos, a comercialização de áreas industriais e os projetos que impulsionavam o crescimento da Serra. No fim daquele período, porém, essa narrativa mudou.
Em dezembro de 1988, denúncias envolvendo a gestão da Suppin haviam chegado à Assembleia Legislativa. O então deputado estadual Perly Cipriano questionava desapropriações e a venda de terrenos pertencentes ao Centro Industrial de Vitória (Civit), o que levou o governo estadual a determinar a abertura de uma auditoria para apurar a atuação da autarquia.
Em meio à repercussão das denúncias, a trajetória de Eldes Scherrer de Souza teve um desfecho abrupto. Em 12 de dezembro de 1988, o então superintendente da Suppin foi encontrado morto em sua residência, em Vitória.
Na época, Eldes não deixou qualquer explicação sobre os motivos que o levaram ao suicídio. Amigos relataram publicamente que ele estava abalado com a repercussão das denúncias envolvendo a autarquia, mas não há confirmação sobre as razões que motivaram sua morte.
No dia seguinte, ele foi sepultado em Cachoeiro de Itapemirim, cidade onde nasceu, na Região Sul do Espírito Santo. Autoridades estaduais acompanharam o funeral e prestaram solidariedade à família.
A auditoria aberta pelo governo estadual prosseguiu após a morte de Eldes. Meses depois, já em 1989, a Auditoria Geral do Estado (AGE) divulgou que havia identificado irregularidades na comercialização de lotes industriais durante a gestão da Suppin. Segundo o relatório, houve vendas realizadas sem o devido acompanhamento do órgão e áreas destinadas à instalação de indústrias teriam sido revendidas a terceiros.
De acordo com a auditoria, a prática favorecia a especulação imobiliária e desviava os lotes de sua finalidade original: promover o desenvolvimento industrial do Estado.
Legado de desenvolvimento permanece
Décadas depois, o nome de Eldes voltou a ganhar destaque na paisagem da Serra. Além da avenida, ele passou a identificar o Sistema Viário Eldes Scherrer Souza, construído na região de Laranjeiras, onde antes ficava a conhecida Rotatória do Ó.
Segundo a Prefeitura da Serra, o complexo foi projetado para melhorar a mobilidade em uma das áreas de maior circulação do município, por onde passam cerca de 45 mil veículos por dia. A estrutura reúne viadutos, mergulhões, vias expressas, corredor exclusivo para ônibus e ciclovias, conectando importantes bairros da região e facilitando o acesso ao polo industrial.
A trajetória de Eldes Scherrer de Souza reúne dois capítulos inseparáveis: o do arquiteto que ajudou a desenhar a expansão industrial da Serra e o do gestor que terminou a vida sob o peso de denúncias ainda investigadas à época.
Décadas depois, a homenagem permanece em uma das principais avenidas da Serra e e em um dos maiores complexos viários do município. Para milhares de pessoas que percorrem diariamente a região, Eldes Scherrer de Souza é apenas o nome de uma placa. Por trás dela, porém, está a história de um personagem que ajudou a moldar a expansão industrial da cidade, mas cuja trajetória também foi marcada por controvérsias.
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