"Mamãe eu não quero, não quero trabalhar de sol a sol, quero ser, quero ser cantor de rádio ou então jogador de futebol". Esta é uma marchinha carnavalesca de 1937, em alusão à "Mamãe eu quero mamar", de Jararaca e Vicente Paiva.
Como sempre, era a via política do protesto tupiniquim impregnado de bom humor e lucidez espalhada no carnaval. Todo mundo cantava nas ruas, nos clubes, nas favelas. Outro dia, um grupo de amigos lembrava os jogadores de futebol que marcaram muitas memórias. Eu estava lá, cercado por outros especialistas em lógica popular aplicada ao esporte bretão, como diziam os locutores de rádio que transmitiam os jogos contando os movimentos dos atletas em ritmos e altura da voz de modo a fazer ver a jogada.
Ainda não havia televisão e esta quando chegou ao Brasil era privilégio das poucas famílias abastadas. E, mesmo assim, para ver a imagem tinha que adivinhar o que aqueles tracinhos significavam.
O amor ao futebol, digo paixão, é impregnante. Tem origem na própria história do desenvolvimento emocional primitivo, e - da forma que é - só acontece no Brasil. Uma vez instaurado o amor pelas cores de um time, estas não saem do peito do sofredor nem a pau.
O torcedor em sua unanimidade jamais abandona o pavilhão de seu clube que impregna o peito e o cérebro. É capaz de separar-se do casamento, do país, do emprego, do amigo, de qualquer coisa, exceto – creiam-me meus senhores – mudar de time de futebol, que ama com irretocável investimento amoroso.
Esse gostar nasce da identificação com a figura paterna, que pode ser o pai ou alguém que ocupe essa função. Por exemplo, papai é Vasco, eu também. Ou opta pelo principal adversário, começando aí o confronto, dentro da mesma redoma amorosa. É quando a criança brinca de calçar os sapatos do pai, as camisetas etc. Uma vez que o time tomou conta do sistema psicossomático do ser iniciante, será assim para todo o sempre.
Essa modalidade de amor é tão expansiva que pode ser - e é - colocada nos representantes desse profundo delírio, os atletas. Cada jogador, minha senhora, representa com força um pedaço do torcedor. E são, como diria o jornalista Pedro Maia, imorríveis.
Qualquer roda de boteco que se preze, com bebida ou sem, obedece religiosamente a pauta. Isto é, relembrar o nome e as faculdades dos jogadores memorizados e, junto com eles, a façanha dos clubes queridinhos, independentemente da época.
É inevitável nessas ocasiões a santificação do Pelé.
“Pelé é Pelé, vamos falar dos outros”.
Os pesquisadores de profundidade futebolística vão fundo. A maioria das vezes entrando no perigoso campo das comparações. Sai até disputa de quem lembra mais.
Zizinho era tão bom quanto qualquer um, entra uma tese. Garotos de 18 anos de idade dizem com a maior convicção que a Seleção Brasileira não ganhou do Uruguai na final no Maracanã (Uruguai 2 a 1) porque não quis. Um absurdo, Uruguai era melhor.
Note que cada torcedor traz dentro do peito um predileto, sendo capaz de morrer por ele. Assim é que pairam nos imaginários dos botequins e das reuniões. Dizem à boca miúda que há um boteco em lugar incerto e não sabido com o codinome irreverente e cheio de fé – Deu é amor – onde é proibido falar qualquer coisa que não seja a defesa dos mitos sagrados. Sei lá.
Do desejo expresso no início dessas mal traçadas – querer ser cantor de rádio ou jogador de futebol – só ficou este último item. Projetar nos gramados, nas várzeas, nas praias, nos quintais, o próprio self incorporado no apaixonante ídolo escolhido democraticamente, eis aí uma pratica da democracia vinda diretamente do desejo do democrata. Não conheço nenhuma outra.
Dirijo minha memória visual para fazer um exercício. Lembrei do Tostão, Gerson, Rivelino, João Francisco, Arinos, Zizinho, Coutinho (gêmeo do Pelé), Dida, Wilson Pereira, Alarcon, Braulio, Zico, Romário, Reinaldo, Domingos e Ademir da Guia, Maradona, Messi, Neymar, Cruyff, Cristiano Ronaldo, Wallace Berilurdes, Toninho Marins, Dutra, Cacau, Pepe, Jairzinho, Falcão (do salão), Falcão, Rubinho Bianco e Ronald Rubim, e poucos outros...
Respeitável público: sábado, o Flamengo foi campeão a quatro minutos e meio do final . Estava perdendo.
Apareceu no boteco um sábio que alegou haver desvendado a tática usada pelo técnico português, mister Jesus, para que o Urubu bicasse a Libertadores da América. De propósito, teria desarrumado o próprio time e confundido os hermanos.
Cada gênio que aparece...