Publicado em 26 de julho de 2022 às 07:15
SÃO PAULO, SP - Uma nova pesquisa analisou 528 casos de varíola dos macacos e concluiu que 95% das infecções ocorreram durante o contato sexual. A doença não é considerada uma infecção sexualmente transmissível (IST), mas é disseminada principalmente por contatos durante o sexo neste novo surto, considerado como emergência pública de preocupação global pela OMS (Organização Mundial da Saúde).>
O Brasil registrou 607 casos da doença até a última sexta-feira (22). O saldo é mais do que o dobro verificado no último dia 9, quando havia 218 diagnósticos confirmados em todo o país.>
O novo estudo foi publicado na última quinta (21) no New England Journal of Medicine. Os 528 casos analisados na pesquisa foram registrados em 16 países - o Brasil não compõe a amostra - entre abril e junho deste ano.>
A pesquisa aponta que 95% das infecções se deram por contato próximo que aconteceu durante o sexo. A conclusão, embora não seja possível confirmá-la completamente, envolve o fato de que 406 dos participantes tinham histórico recente de atividades sexuais com uma média de cinco parceiros sexuais nos últimos três meses.>
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Em sua grande maioria, os infectados eram homens gays ou bissexuais - eles representaram 98% dos participantes. Clarissa Damaso, que não assina o estudo e é virologista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), diz que esse perfil demográfico já era observado em grande parte dos países com novos diagnósticos da doença.>
A OMS também já havia alertado que a disseminação da doença se dá principalmente em homens que fazem sexo com outros homens. Segundo a organização, 90% dos casos confirmados são nessa população - percentual próximo ao encontrado na nova pesquisa.>
Um receio é que este cenário cause estigma a homens que mantêm relações sexuais com outros homens. "Estigma e discriminação podem ser mais perigosos que qualquer vírus", afirmou Tedros Adhanom, diretor-geral da organização.>
No estudo recém-publicado, o sêmen de 32 pacientes foi analisado para averiguar a presença do DNA do monkeypox, vírus que causa a varíola dos macacos. Desse número, 29 registraram a presença do patógeno.>
Outras pesquisas já tinham identificado o vírus no sêmen de pacientes. No entanto, nenhuma identificou o vírus ativo no sêmen ou em fluido vaginal, afirma Damaso. É por essa razão que a varíola dos macacos não é considerada como uma IST.>
Mesmo assim, os autores do estudo explicam que a presença do vírus no sêmen é um indicativo de que a transmissão deve ter ocorrido, em sua maioria, por meio de contato sexual.>
A presença de lesões localizadas nas regiões genitais, anais e orais é outra evidência da pesquisa que ratifica a hipótese da transmissão por contato sexual. Esse padrão já vinha sendo reconhecido, diz Damaso, que também é uma das pesquisadoras que compõem o grupo de trabalho para enfrentamento da varíola de macacos organizado na UFRJ.>
Ela afirma que as lesões causadas pela varíola dos macacos, em seu quadro mais comum, ocorrem principalmente nas extremidades: braços, pernas e rostos, por exemplo. "Ter lesão genital não é característico de monkeypox, exceto neste surto atual se houve a transmissão pelo contato sexual.">
A virologista diz que já existem casos de pacientes que não percebem outros sintomas comuns à varíola dos macacos, como febre, e apresentam somente as lesões na genitália, ânus ou região oral.>
"Esse quadro que varia muito é que tem sido um problema na identificação por parte de quem atende", diz.>
Por isso, Damaso diz que, no momento atual, o aparecimento de lesões já deve fazer com que o paciente seja considerado suspeito para monkeypox a fim de evitar o descarte de casos que podem ser causados pela doença.>
Varíola dos macacos e ISTs Mesmo que não seja considerada como uma IST, o aumento de evidências sobre a transmissão da varíola dos macacos por contato sexual aproxima a doença dessas infecções.>
Um exemplo é do próprio estudo recém-publicado, no qual 377 participantes com monkeypox fizeram testes para ISTs e cerca de 29% tiveram resultados positivos para alguma dessas outras infecções.>
Dados como esse mostram que é possível ter uma coinfecção de monkeypox com outras ISTs. Damaso afirma que isso é importante porque alguns profissionais de saúde podem considerar que, se o paciente apresentar teste positivo para algumas das infecções sexualmente transmissíveis, o exame para a varíola dos macacos poderia ser descartado -algo que ela condena.>
"Não pode excluir monkeypox se a pessoa testar positivo para sífilis secundária ou gonorreia, por exemplo", conclui.>
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