Publicado em 19 de maio de 2022 às 14:37
Uma vacina contra meningite meningocócica apresentou alta proteção em bebês de até dois anos para os quatro tipos de bactérias mais comuns nessa faixa etária e que nunca haviam tido contato com o patógeno.>
A vacina induziu a uma resposta imune similar à da fórmula já existente, conhecida como monovalente contra meningite causada por meningococo C, e apresentou ainda proteção elevada comparada à vacina quadrivalente também já em uso, que protege contra os tipos A, C, W e Y.>
A meningite meningocócica provoca inflamação na meninge, membrana que envolve o sistema nervoso, incluindo o cérebro. Os sintomas em geral são inespecíficos e incluem fraqueza, febre, vômito e dor de cabeça. Em casos mais graves, pode levar a hospitalização e morte.>
Os resultados do estudo clínico de fase 3 que avaliou a não inferioridade do imunizante em comparação aos outros dois foram publicados no último dia 21 na revista especializada Human Vaccines and Immunotherapeutics.>
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De acordo com a farmacêutica Sanofi, a vacina em estudo, chamada MenQuadfi (MenACWY-TT), é inovadora por induzir uma resposta imune superior ao tipo C do meningococo em comparação às outras fórmulas mono e tetravalente, da farmacêutica Pfizer. O meningococo C é o principal agente causador da doença meningocócica invasiva no Brasil (corresponde a cerca de 80% dos tipos de meningite meningocócica no país).>
O imunizante se mostrou seguro, sem a ocorrência de efeitos adversos graves. Para avaliar a resposta imune da nova fórmula, os pesquisadores recrutaram 701 bebês de 12 a 23 meses, que não haviam recebido nenhuma vacina meningocócica prévia, em 29 centros distribuídos em Alemanha, Dinamarca e Finlândia.>
Do total de bebês, 230 receberam a vacina MenQuadfi, 232 receberam a quadrivalente da Pfizer e 239 receberam a monovalente contra o tipo C. Amostras de sangue foram colhidas no primeiro dia antes da vacinação e 30 dias depois para avaliar anticorpos produzidos.>
Segundo Isabelle Bertrand, vice-diretora de assuntos médicos de vacinas na Sanofi Europa, esse é o primeiro estudo que demonstrou uma vacina meningocócica quadrivalente tendo uma resposta imune superior em crianças não previamente imunizadas em comparação com uma vacina monovalente disponível.>
"O meningococo C é atualmente o que mais causa meningite meningocócica no Brasil, porém um aumento significativo na incidência de meningite causada pelo tipo W, mais agressivo, também tem sido observado nos últimos dez anos. Dada a imprevisibilidade do tipo em circulação, é importante expandir ainda mais a proteção contra os quatro principais tipos [A, C, W e Y] da doença", disse.>
Além disso, quando avaliadas três anos depois, 100% das crianças imunizadas com a MenQuadfi tinham ainda anticorpos --ante a marca de 6 em cada 10 alcançada com a vacina quadrivalente.>
Na Europa, onde os estudos foram realizados, a vacina mais comumente em uso é a quadrivalente da Pfizer, mas essa mesma vacina possui menor proteção contra o tipo C. Recentemente, o Reino Unido e a Holanda tiveram surtos da doença por uma forma mais agressiva do meningococo C, cuja proteção na população era menor devido ao escape vacinal contra esse tipo.>
Assim, os programas nacionais de imunização passaram a adotar a opção de imunização com a vacina monovalente C nos primeiros dois anos de vida e, depois, com a forma quadrivalente na adolescência.>
Por aqui, o Programa Nacional de Imunização oferece a vacina monovalente C no calendário de rotina da criança, com três doses da versão conjugada ao três, cinco e 12 meses (reforço). A forma contra o meningococo B é ofertada para os bebês na rede privada. Já a forma quadrivalente é ofertada na rede pública para jovens de 11 e 12 anos desde 2020.>
De acordo com a farmacêutica, a MedQuandfi já possui autorização para uso em crianças maiores de 12 meses no Brasil.>
Segundo o pediatra Marco Aurélio Sáfadi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a nova vacina tem como vantagem uma resposta imune muito robusta e que se mostrou também mais duradoura nos estudos, o que pode indicar que ela terá uma eficácia maior em bebês de até dois anos quanto à proteção contra o tipo C.>
"É provável que essa taxa mais alta de anticorpos se traduza em uma proteção mais duradoura, protegendo as crianças por mais tempo e contra as diferentes formas", disse.>
Para ele, apesar de ser uma doença rara, com uma incidência na população de cerca de mil casos por ano (no período pré-pandemia), a meningite causa medo por poder evoluir para formas graves em poucas horas. Segundo o Ministério da Saúde, em 2022 já foram registrados 11 óbitos em crianças e jovens de zero a 19 anos. Em 2021, foram nove mortes no total e, em 2020, 51.>
"Na maioria das vezes, ela acomete crianças saudáveis, sem nenhuma condição prévia, e pode evoluir para um quadro grave com internação e até risco de vida em poucas horas", diz. "Por isso, é muito importante manter uma taxa de cobertura vacinal elevada para proteger todas as crianças".>
De acordo com o pediatra, as doenças de transmissão respiratória, como é o caso da meningite, tiveram uma redução na incidência durante a pandemia devido ao isolamento e pelo fato de as crianças terem ficado muitos meses sem frequentar as escolas. Agora, com o retorno, é possível ver uma recrudescência de casos, afirma.>
"Vimos uma redução de cerca de dois terços dos casos que normalmente observávamos. Mas sem dúvida é preciso aumentar a proteção agora, principalmente daqueles que não foram vacinados nos dois últimos anos, para evitar novos surtos.">
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