Publicado em 24 de março de 2026 às 07:21
Há dois anos, uma ONG brasileira recebia a notícia de que uma bilionária americana doaria US$ 8 milhões (R$ 46 milhões, no câmbio de hoje) para ela. Em um mês, o dinheiro de Mackenzie Scott, ex de Jeff Bezos, chegou para a Plan International Brasil, organização que desde 1997 ajuda a romper ciclos de violência contra meninas no país.>
Era a maior doação já feita pela filantropa entre as 27 organizações brasileiras contempladas desde 2021, após anúncio de que Scott doaria pelo menos metade de sua fortuna de US$ 30 bilhões (R$ 180 bilhões) em vida.>
"Acho que tem a ver com a causa e os desafios que a gente tem no Brasil em relação a gênero e às violências que as meninas sofrem", diz Cynthia Betti, CEO da Plan Brasil.>
Sem precisar prestar contas dos milhões recebidos para Scott, a organização decidiu manter 90% do recurso em uma aplicação financeira para "garantir a sustentabilidade institucional e a capacidade da organização de reagir a crises futuras".>
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Os outros 10% foram para os projetos da ONG -como de igualdade de gênero e apoio à primeira infância- no Maranhão, Piauí, na Bahia e em São Paulo e para o cofinanciamento de iniciativas que ajudam a assegurar direitos.>
Como os R$ 2 milhões destinados ao programa Zunne, que empresta dinheiro em condições especiais a negócios liderados por mulheres nas regiões Norte e Nordeste.>
O dinheiro, no entanto, é pouco para resolver os desafios em torno do combate à violência contra meninas e mulheres no Brasil. Em 2025, o país registrou 1.568 vítimas de feminicídio, crescimento de 4,7% em relação a 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.>
"As tentativas contra o aborto legal, o aumento do feminicídio, isso não vai resolver com dinheiro. A mudança cultural não vem com dinheiro. Nem se Mackenzie doasse mais um bilhão, a gente não conseguiria resolver", diz Betti.>
Em entrevista à reportagem, a CEO da Plan Brasil explica como a doação milionária impactou o atuação da ONG e como será aplicada para garantir direitos de meninas e mulheres.>
PERGUNTA - Faz dois anos que a Plan recebeu a doação de US$ 8 milhões da Mackenzie Scott. Como foi a decisão de como aplicar esse recurso? >
CYNTHIA BETTI - Eu lembro até hoje da ligação da equipe dela. Disseram: "não vamos falar para vocês o que fazer com esse dinheiro e não queremos prestação de contas". Foi um recurso que chegou na base da confiança, depois de uma extensa avaliação. Falei para a nossa equipe que tínhamos que fazer daqueles R$ 40,6 milhões tudo o que a gente sempre sonhou na Plan.>
Era algo que confortava o coração, um reconhecimento pelo trabalho, autoestima para quem está no terceiro setor e lida com tantas dificuldades na captação de recursos. Mas a gente não podia se acomodar, o dinheiro tinha que durar.>
Revisamos nossos projetos com apoio de uma consultoria. Em maio, apresentamos o plano para o conselho e começamos a usar o recurso, sempre prestando contas para a sociedade. A doação nos permitiu reforçar equipe, dar formação para a liderança, ampliar a diversidade e o bem-estar, automatizar processos, investir em monitoramento e avaliação de impacto, inteligência artificial e segurança da informação.>
P - O que esse recurso significa no orçamento anual da Plan? >
CB - Nosso orçamento anual é de R$ 26 milhões, não é pouco. E 80% dele vem de fora do Brasil porque ainda somos poucos conhecidos no país. Se eu colocasse a doação da Mackenzie Scott apenas em nossos projetos, em dois anos ele acabaria.>
P - A Plan foi a ONG que recebeu a maior doação da filantropa americana no Brasil [Instituto Ayrton Senna, por exemplo, recebeu US$ 6 milhões; Gerando Falcões, US$ 5 milhões]. >
CB - A que se deve isso? Acho que tem a ver com a causa. Tem a ver com os desafios que a gente tem no Brasil em relação a gênero e a todas as violências que as meninas sofrem. E também com a capacidade que a Plan tem de fazer esse recurso se tornar exponencial.>
P - Segundo relatório que a própria Plan produziu, ao ouvir 17 ONGs brasileiras contempladas com doações de Scott, 82% delas usaram parte da verba em aplicações financeiras ou fundos patrimoniais (endowments). Qual foi a escolha de vocês? >
CB - Temos uma boa parte do dinheiro investido em um fundo conservador, completamente seguro, com regras para uso que passam pelo conselho. A gente não viu vantagem em criar o endowment.>
Eu entendo que é uma proteção para essas organizações, mas a gente não queria que esse dinheiro ficasse na estrutura. Preferimos a flexibilidade de, daqui a um ano, decidir colocar mais dinheiro em um dos projetos. Temos muitos controles para fazer o melhor uso de cada centavo que a gente recebe, e não mudamos isso.>
P - Onde mais vocês usaram a doação milionária? >
CB - Lançamos o Fundo Acelere o Relógio da Igualdade com R$ 500 mil para apoiar organizações de base comunitária liderados por meninas, jovens mulheres, coletivos e organizações da sociedade civil. Investimos R$ 2 milhões no programa Zunne, com foco em negócios liderados por mulheres, pessoas negras e indígenas e R$ 1 milhão na campanha de conscientização Azul Por Elas.>
Temos 11 projetos e 6 mil crianças apadrinhadas. Estamos em comunidades rurais e quilombolas que não conheciam seus direitos. A gente trabalha com mães, pais, cuidadores, escolas e assistentes sociais preparados para ver quando essa criança passou por uma violência.>
P - Vocês investem em negócios de impacto via programa Zunne. Por que uma organização que existe para garantir o direito de meninas decide apoiar negócios socioambientais? >
CB - Logo depois da pandemia, vimos o empobrecimento das comunidades onde a gente atua. Criamos então um projeto de empreendedorismo para as mães das nossas crianças. Porque se você investe na mulher, ela vai investir na família.>
Fui ler de novo o livro do [Muhammad] Yunus, "O Banqueiro dos Pobres", que fala de microcrédito, e decidimos apoiar mulheres sem acesso ao sistema bancário. O Zunne empresta dinheiro para pequenos negócios no Norte e no Nordeste, com carência de seis meses e quatro anos para pagar. Nas mentorias do programa, vamos aproveitar para falar de igualdade e de violência com essas mulheres.>
P - Além da Mackenzie Scott, algum outro filantropo doa para a Plan Brasil? Não. >
CB - E fico pensando quem é a Mackenzie brasileira. Eu ainda não identifiquei.>
P - Dinheiro resolve bastante coisa, mas tem algum problema ou desafio que ele não resolve? >
CB - Política pública a gente não resolve com dinheiro. As tentativas contra o aborto legal, o aumento do feminicídio, isso não vai resolver com dinheiro. Podemos investir em pesquisa e comunicação, mas a mudança cultural não vem com dinheiro.>
Vamos continuar fazendo advocacy, repetindo e repetindo, mas não consigo comprar essa certeza de que a gente vai conseguir mudar a cultura em relação às violências que as meninas sofrem. Nem se a Mackenzie doasse mais um bilhão, a gente não conseguiria resolver.>
Cynthia Betti, 55, é CEO da Plan International Brasil. Com mais de 30 anos de experiência no setor corporativo, passando por empresas dos setores químico, farmacêutico e de seguros, fez uma transição de carreira para o terceiro setor em 2018. É formada em pedagogia pela USP, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV.>
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