Publicado em 10 de abril de 2022 às 15:12
Quando a historiadora Heloisa Murgel Starling, o cientista político Miguel Lago e o filósofo Newton Bignotto decidiram unir esforços para escrever um livro sobre o bolsonarismo, o que mais os intrigava era a resiliência do apoio que o presidente Jair Bolsonaro recebe de parte da população.>
Para os três intelectuais, era difícil entender o êxito alcançado pelo presidente na campanha de 2018 e o fato de que seu governo ainda contava com a aprovação de 1 em cada 4 brasileiros após dois anos de pandemia, a despeito dos erros no enfrentamento da Covid e de mais de 600 mil mortes.>
As reflexões que eles fizeram nos meses de isolamento chegam às livrarias nesta segunda (11), num momento em que se acumulam evidências de que Bolsonaro não só conservou o apoio de grande parcela do eleitorado, mas começou a recuperar parte dos seguidores que tinham se desgarrado na pandemia.>
"Linguagem da Destruição" é composto por três longos ensaios que buscam entender a formação do bolsonarismo e os riscos que a democracia brasileira enfrenta. Os capítulos são individuais, mas os textos também refletem discussões que os três autores tiveram durante a quarentena, remotamente.>
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O primeiro, escrito por Lago, examina fatores que ajudaram Bolsonaro a surfar a onda de descrédito nos partidos políticos tradicionais, em especial a bem sucedida estratégia de comunicação desenvolvida nas redes sociais para mobilizar seguidores, espalhar desinformação e combater adversários.>
Starling aponta o reacionarismo como um traço essencial do bolsonarismo. A pesquisadora analisa suas origens históricas para tentar explicar os vínculos estabelecidos pelo presidente com a ditadura militar (1964-1985) e a proeminência que a exaltação dos governos autoritários ganhou em seus discursos.>
Bignotto revisita a história da ascensão do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália em busca de elementos para entender Bolsonaro. O professor rejeita comparações simplistas com os movimentos do início do século 20, mas encontra neles várias características comuns à nova direita brasileira.>
Escritos a quente, os ensaios não oferecem respostas definitivas, mas reúnem material farto para pensar. "O bolsonarismo é um fenômeno que transcende o presidente e seus assessores mais imediatos, com raízes mais profundas que precisam ser investigadas", afirma Bignotto.>
Na visão do trio, o objetivo de Bolsonaro é simplesmente destruir as instituições criadas no processo de redemocratização do país, a partir da segunda metade dos anos 1980, e minar as garantias estabelecidas pela Constituição de 1988 para proteger direitos fundamentais e os pilares da democracia.>
Para Starling, a força do bolsonarismo e a popularidade do presidente sugerem um rompimento de laços de solidariedade social construídos após o fim da ditadura. "Precisamos entender como a nossa comunidade se sustentará se alguns setores não tiverem mais compromisso com isso", diz ela.>
Lago vê Bolsonaro como um personagem único na história do país. "Não há nada comparável ao que a nossa direita produziu antes", afirma.>
"Quando enaltece a ditadura, ele não se refere a políticas públicas que gostaria de resgatar, mas à tortura de opositores, ou seja, às práticas mais terríveis do regime".>
Starling caracteriza o projeto de Bolsonaro como uma "utopia regressiva", dada a ausência de propostas para o futuro do país. "Quando se volta para o passado autoritário, ele não está em busca de soluções para os nossos problemas, mas de identificação com os grupos mais radicais que apoiaram o regime", diz.>
Os autores do livro não fazem previsões, mas temem pelas consequências do processo de corrosão das instituições no longo prazo.>
"Há um risco de desmanche completo da nossa esfera pública, da arena política, se essa destruição continuar no ritmo acelerado dos últimos três anos", afirma Bignotto.>
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