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Saúde

ES se destaca em meio aos desafios da vacinação nas escolas no Brasil

"A vacinação não é responsabilidade exclusiva da saúde. A escola amplia o acesso", destaca a coordenadora de Imunização do ES

Publicado em 21 de Junho de 2026 às 11:33

Redação de A Gazeta

Publicado em 

21 jun 2026 às 11:33
Freepik

[Com informações de Cláudia Collucci, da FolhaPress]

Pioneiro na criação de uma lei estadual, em 2018, que passou a exigir a apresentação da carteira de vacinação atualizada para matrícula e rematrícula de estudantes das redes pública e privada, o Paraná inspirou outros Estados a seguirem o mesmo caminho. As experiências mostram, porém, que legislações sozinhas não garantem melhores coberturas vacinais.


Ao menos 16 Estados, entre eles o Espírito Santo, possuem legislações ou diretrizes relacionadas à exigência da atualização vacinal no ambiente escolar. Transformar a escola em uma aliada da imunização busca enfrentar uma barreira conhecida pelas equipes de saúde: crianças mais velhas e, principalmente, adolescentes estão menos presentes nas salas de vacina.


Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 mostram que pouco mais de 50% dos adolescentes tinham tido contato com algum serviço de saúde nos 12 meses anteriores ao estudo. Mas colocar a estratégia em prática exige mais do que normas. 


"Mesmo tendo uma lei pioneira no país, houve muitas resistências. A parceria entre a Secretaria de Estado da Saúde e a Secretaria de Estado da Educação foi fundamental para superar esses obstáculos", conta Virginia Dobrowski dos Santos, coordenadora estadual de imunização da Secretaria da Saúde do Paraná.


A experiência foi uma das premiadas em uma mostra realizada pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) na semana passada em Brasília. No mesmo evento, o Espírito Santo foi destaque devido ao salto de cobertura vacinal contra o HPV também por meio da iniciativa que envolve rede de trabalho conjunta entre escolas e serviços de saúde.

Desafios e diálogo

Segundo Virginia, a construção dessa parceria exigiu diálogo constante para mostrar que a vacinação também é responsabilidade da comunidade escolar. "Não foi fácil chegar até aqui. Tivemos professores dizendo que não era competência deles trabalhar a questão da vacinação".


Outro desafio é a autorização das famílias para a aplicação das doses no ambiente escolar. No Paraná, a vacinação depende de autorização escrita dos responsáveis, e algumas famílias ainda demonstram receio em relação a eventos adversos.


Para aumentar a confiança, alguns municípios passaram a permitir que pais acompanhem a vacinação nas escolas, especialmente de crianças menores, além de investir em comunicação positiva sobre os benefícios das vacinas.


Um desafio adicional é aprimorar o registro das doses aplicadas. O Paraná ainda enfrenta dificuldades porque parte dos municípios utiliza sistemas próprios de informação, o que pode atrasar ou dificultar a consolidação dos dados estaduais.


Para Ana Catarina de Mello Araújo, coordenadora-geral de Incorporação Científica e Imunizações do PNI (Programa Nacional de Imunizações), esse desafio não é exclusivo do Paraná. Segundo ela, a vacinação nas escolas sempre existiu no país, mas durante muito tempo não era identificada pelos sistemas oficiais.


A partir de 2024, o sistema de informação do Ministério da Saúde passou a registrar se a dose foi aplicada em rotina, em intensificação ou dentro do ambiente escolar. A mudança permitiu dimensionar uma prática que antes ficava invisível.


Segundo Ana Catarina, em 2025 mais de 4.000 municípios brasileiros registraram ações de vacinação nas escolas — o equivalente a mais de 80% dos municípios do país. "Agora temos um dado palpável de uma estratégia que sempre vinha sendo feita, mas que a gente não conseguia visualizar." Para ela, a escola é especialmente importante para alcançar adolescentes.

Cobertura maior

No Paraná, o principal impacto apareceu justamente nessa faixa etária. A vacinação escolar contribuiu para ampliar a cobertura contra HPV e meningite, imunizantes historicamente mais difíceis de alcançar entre adolescentes. "Na adolescência, muitas vezes o jovem não procura mais a sala de vacina. Então precisamos fazer o resgate dessa população", explica Virginia.


Em 2024, o Paraná alcançou as melhores coberturas vacinais da década, incluindo a maior cobertura contra HPV entre os Estados brasileiros. Em 2025, atingiu a meta do Ministério da Saúde para meninos e meninas, com 91,5% e 98,9%, respectivamente.


A estratégia também ajudou na recuperação de vacinas da infância, como pentavalente e poliomielite, após a queda observada no país a partir de 2016 e agravada durante a pandemia de Covid-19. Ambas ficaram com cobertura acima de 93%. Para Virginia, a vacinação nas escolas foi um divisor de águas no processo de retomada.


Em relação à vacina contra o HPV, porém, foi preciso enfrentar barreiras culturais e de informação. Maria Goretti da Vila Lopes, diretora de Atenção e Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, lembra que houve resistência inicial de alguns pais, especialmente pela associação equivocada entre a vacina e o início da vida sexual dos adolescentes.


"Muitos pais pensavam que vacinar contra o HPV significava admitir que os filhos estavam iniciando a vida sexual. Era uma dificuldade maior em relação às meninas", afirma. Com o tempo, segundo as gestoras, a comunicação mudou o foco para a prevenção do câncer.


"Precisamos mostrar que é uma vacina que previne câncer e que quanto mais cedo a criança for vacinada, maior será a proteção. Depois do início da atividade sexual, a capacidade de prevenção é menor", diz. A vacina contra o HPV está disponível no SUS desde 2014 e passou a incluir os meninos a partir de 2017. A adesão desse público, porém, permaneceu menor.

Resultados no Espírito Santo

No Espírito Santo, o enfrentamento desse problema começou em 2018, quando o Estado começou a acompanhar mais sistematicamente esse indicador. Naquele ano, a cobertura era de 54% entre meninas e de 48% entre meninos.


A iniciativa, também premiada pelo Conass, envolveu uma parceria entre o Programa Estadual de Imunizações, a atenção primária, as secretarias de Educação e Saúde, os municípios, as escolas e a área de comunicação. Os resultados apareceram de forma progressiva.


Entre os meninos, grupo historicamente mais resistente à vacinação, a cobertura saltou de 48% em 2018 para quase 95% em 2025.

A vacinação não é responsabilidade exclusiva da saúde. A escola amplia o acesso ao público-alvo, e a articulação intersetorial produz resultados sustentáveis

Danielle Grillo Lyra | Coordenadora de Imunização do ES

Ana Catarina, do PNI, reforça que a articulação com a educação permanece como um dos principais desafios. A entrada das equipes de saúde nas escolas exige negociação sobre horários, logística e organização da rotina escolar.


 "Às vezes, o melhor tempo da escola não é o melhor tempo da equipe do município. Essas articulações têm um tempo para serem feitas", afirma.


Para o Conass, as experiências apresentadas demonstraram que a recuperação das coberturas vacinais depende da capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de reconquistar a confiança da população por meio de uma comunicação transparente, estratégica e baseada em evidências. "O combate à desinformação não se faz apenas com informação técnica, mas com a construção de vínculos de credibilidade com a sociedade", destacou.


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