Publicado em 6 de dezembro de 2022 às 14:23
- Atualizado há 3 anos
O gabinete de transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estuda tirar a segurança presidencial e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) do guarda-chuva do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), antiga Casa Militar.>
Atualmente, a pasta está sob o comando de Augusto Heleno, aliado próximo de Jair Bolsonaro (PL), e já gerou impasse com a equipe do petista, que desconfia e não quer dividir a coordenação da segurança do presidente eleito na posse com eles, como é de hábito.>
Integrantes da equipe de Lula se incomodam com a militarização da inteligência, que assessora o mandatário. A avaliação é a de que se trata de um resquício do período da ditadura militar e que em outros países tanto esta área quanto a de segurança do chefe do Executivo estão sob a tutela de civis.>
Além disso, a proximidade de militares com Bolsonaro faz com que a transição avalie que não é possível contar com o atual quadro para cuidar de setores tão sensíveis diante da enorme polarização do país.>
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Uma das hipóteses em estudo é alocar a Abin sob outra secretaria palaciana, como a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos), cujo principal cotado para o posto é o ex-chanceler Celso Amorim.>
Já a segurança presidencial, segundo relatos de quem acompanha as conversas, ficaria com a Polícia Federal.>
O delegado Andrei Augusto Passos Rodrigues, que cuida da segurança de Lula desde a campanha, foi nomeado na sexta-feira (2) para o grupo técnico de inteligência estratégica do gabinete de transição. Ele é citado por integrantes da equipe de Lula como nome forte para o cargo de diretor-geral da PF.>
Outros quatro servidores foram indicados para o grupo: Vladimir de Paula Brito, da Polícia Federal e especialista em inteligência, e outros três nomes mantidos sob sigilo.>
A proposta encontra respaldo na carreira. Servidores da Abin, representados pela Intelis (União dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin), também defendem que a agência deixe o GSI. Eles levaram a demanda à equipe de Lula.>
A proposta na mesa da transição esvaziaria o GSI de duas de suas principais funções e não é vista como unanimidade na equipe do presidente eleito.>
Uma ala da transição resiste à medida, segundo interlocutores de Lula, e é liderada pelo general Gonçalves Dias, mais conhecido como GDias.>
Próximo a Lula, ele foi o responsável pela segurança do petista em seus dois mandatos na Presidência e chefiou a Coordenadoria de Segurança Institucional no início do governo Dilma.>
Hoje é cotado para o cargo de chefe do GSI. Ele foi para a reserva do Exército em 2012, mas mantém uma boa relação com militares que hoje estão na cúpula da Força Terrestre.>
Há ainda um temor de que eventual medida sobre o GSI possa gerar rebuliço no mundo militar, um ponto que já é de atenção pela equipe do futuro governo. Bolsonaro fez uso político das Forças Armadas e criou crises sem precedentes ao trocar ministros e comandantes por outros mais aliados à sua administração.>
Como a Folha de S.Paulo mostrou, interlocutores de Lula vem conversando com a alta cúpula das Forças Armadas. O nome de José Múcio Monteiro (ex-TCU) como provável futuro ministro da Defesa agradou setores militares.>
No decreto de 30 de julho de 2020, que versa sobre as atribuições do GSI, não há nada que diga que, necessariamente, a pasta será liderada por um militar. Mas, pela tradição e pela natureza do órgão, que se chamava Casa Militar até recentemente, sempre foi assim.>
A disputa sobre o mérito de tirar ou não a Abin e a segurança presidencial do GSI também revela diferentes entendimentos, dentro da equipe de transição, sobre os trabalhos do ministério durante a posse de Lula.>
Há hoje dois planos para a segurança da posse sendo traçados, por ora, independentes. Um pela equipe da PF, aliada às corporações do DF, como Polícia Militar e Bombeiros; outro pelo GSI e o Exército.>
Mesmo sem terem sido acionados formalmente pela transição, os dois últimos passaram a bolar um plano de segurança para a posse por tradicionalmente ter a responsabilidade de liderar esse processo.>
Fontes militares afirmam ainda que, por decreto, cabe às duas instituições definir a CSA (Coordenação de Segurança de Área) em todos os eventos com a presença do presidente da República.>
Por isso, o GSI escolheu o general Marcus Augusto Silva Neto para coordenar a segurança da posse. O militar já exerceu a função de organizar a CSA em outras ocasiões.>
No último desfile de 7 de Setembro, o general foi o responsável por gerenciar a logística de segurança com o apoio das forças de segurança do Governo do Distrito Federal.>
A equipe da transição, no entanto, entende que a posse é um evento que não é regido pelo decreto citado pelos militares, já que a segurança aproximada do presidente eleito é feita pela Polícia Federal.>
Em meio ao impasse, as forças de segurança ligadas à posse participaram de duas reuniões na última quinta-feira (1º) para discutir os preparativos do evento.>
A primeira ocorreu de manhã, no Palácio do Buriti, sede do Governo do Distrito Federal. No encontro, a equipe de segurança do mandatário eleito apresentou sua proposta para o dia do evento, com atenção especial para os shows e atividades artísticas que acontecerão a partir de 11h.>
De acordo com integrantes do gabinete do governo eleito, a expectativa é de 300 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios no dia.>
Ficou definido que cada setor presente na reunião (como PM e Bombeiros) apresentará sua proposta de atuação para a data. E, depois, integrantes da PF na transição elaborarão o plano final.>
O general Silva Neto, indicado pelo GSI, também participou da reunião, que contou com a presença ainda do governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), de Janja, do secretário de Segurança Pública do DF, Júlio Danilo, e de delegados.>
Horas depois, as forças de segurança tiveram um segundo encontro, no Comando Militar do Planalto. A reunião foi marcada pelos militares com o objetivo de ser o primeiro contato de todas as áreas ligadas à posse.>
Participaram da reunião representantes do CMP, GSI, PRF (Polícia Rodoviária Federal), Itamaraty e PF, além do general Gonçalves Dias.>
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