Publicado em 31 de dezembro de 2023 às 16:23
RIO DE JANEIRO - Desde a eleição presidencial de 2022, os irmãos Ciro e Cid Gomes (ambos PDT) romperam relações e racharam o partido no Ceará, reduto eleitoral da família.>
A briga é marcada por acusações de traições e arbitrariedades.>
De um lado, Cid propõe uma aliança do PDT com o PT no Ceará. Do outro, Ciro quer a independência do PDT no Estado. Ele também acusa o irmão de tê-lo abandonado na corrida ao Planalto e atuado em prol do presidente Lula (PT).>
Hoje, o PDT integra a base do líder petista, com o presidente licenciado da sigla, Carlos Lupi, ministro da Previdência. >
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Entenda em 6 pontos o racha entre os irmãos:>
O afastamento entre o ex-presidenciável e o senador começou com a escolha do candidato do PDT ao governo cearense. Cid defendia Izolda Cela, que assumiu o cargo após o então governador Camilo Santana (PT) se licenciar para concorrer ao Senado.>
Ciro, por sua vez, via a possível indicação de Izolda como interferência do PT nos planos do PDT. No final, o partido escolheu Roberto Cláudio, ex-prefeito de Fortaleza — rompendo a aliança de quase duas décadas com o PT, que lançou Elmano de Freitas, deputado estadual na época.>
Contrariado, Cid se afastou da disputa estadual e presidencial, abdicando da coordenação da campanha do irmão, posto que ocupou em outras vezes que Ciro disputou a Presidência.>
A atitude do senador revoltou o ex-ministro, e o sentimento de ter sido traído se agravou durante a campanha do segundo turno.>
Cid, até então escondido e dizendo que deixaria a política, passou a ser um cabo eleitoral ativo para Lula. Depois disso, Ciro afirmou que o irmão deu uma facada em suas costas.>
A briga entre irmãos impacta o PDT em três aspectos cruciais: a postura do partido no Ceará, sua relevância nacional e as estratégias para 2024.>
Cid quer retomar a aliança com o PT no Ceará e propõe uma chapa com os petistas para a eleição municipal de 2024. Ciro discorda. Ele defende que a sigla tenha candidato próprio e seja independente em relação ao governador petista.>
O Ceará é importante para o PDT, pois é o Estado que mais dá votos ao partido para deputado federal. Das 18 cadeiras ocupadas pela sigla na Câmara, 5 são cearenses. É a maior bancada pedetista.>
Ao menos 43 prefeitos, 13 deputados estaduais e 4 federais anunciaram que pediriam a desfiliação do partido.>
O único parlamentar federal que não pediu desfiliação foi André Figueiredo, líder do partido na Câmara e presidente nacional em exercício do PDT. Com a saída dos deputados, o espaço da sigla na Casa cai para 13.>
A disputa também dificulta a definição das estratégias do PDT para 2024, já que a atenção está voltada para o conflito no Ceará. A avaliação da cúpula do partido é a de que o racha no Estado está impedindo a escolha de quadros e alianças para as próximas eleições no resto do país.>
Ciro e Cid se filiaram ao PDT em 2015 com o objetivo de fazer o partido crescer — o que, de fato, fizeram.>
Em 2018, a sigla elegeu 28 deputados, 8 a mais do que na eleição anterior. Eles tornaram o Ceará na maior bancada da sigla: em 2014, o Estado só tinha um deputado federal do PDT (André Figueiredo); na eleição seguinte, passaram a ser 6.>
Porém, em 2022, o partido perdeu significativamente o espaço na Câmara. A redução é atribuída por pedetistas a uma campanha mal sucedida de Ciro e seus ataques duros contra Lula, que espantou eleitores da esquerda que votavam no PDT. Ainda assim, uma ala da executiva nacional do PDT vê o ex-presidenciável como um ativo político importante para 2026.>
Já Cid mantém sua influência na política cearense, sendo apontado como responsável pelos diversos pedidos de saída de membros do partido, incluindo deputados federais, estaduais, prefeitos e vereadores.>
A maior influência no Ceará é de Cid. Ele trava uma disputa judicial com Figueiredo pelo diretório estadual. Hoje, uma liminar do TRE (Tribunal Regional Eleitoral) do Estado garante a presidência do PDT cearense ao senador.>
Cid tem ao seu lado maioria dos pedetistas no Estado, incluindo 13 dos 16 deputados estaduais e 50 dos 57 prefeitos, segundo conta dele próprio. Com exceção de Figueiredo, ele também tem o apoio de todos os deputados federais e dos suplentes.>
Ciro, por sua vez, perdeu parte de seu capital político na eleição passada. Ele se afastou dos aliados e foi escondido da campanha de Roberto Cláudio ao governo do Estado. Em 2022, teve o seu pior resultado eleitoral no Estado, conquistando apenas 6,8% dos votos. Comparando com 2018, quando também concorreu ao Planalto, ele tinha sido o candidato mais votado no Ceará, com 40,95%.>
A postura de Cid na última eleição também desagradou a Figueiredo e demais líderes do PDT, que consideram que o senador virou as costas à sigla ao não apoiar os candidatos do partido. Além disso, a briga pelo diretório cearense é vista como uma afronta de Cid aos dirigentes nacionais.>
Nesse sentido, Ciro tem mais força no PDT nacional do que o irmão. Mas ele também não é unanimidade entre os dirigentes pedetistas.>
Apesar de estar do mesmo lado de Ciro, Figueiredo não é cirista. Ele não apoiou a campanha do ex-presidenciável nem concordava com tom agressivo do então candidato contra Lula. Essa posição é compartilhada com demais integrantes da cúpula pedetista.>
A saída de Cid do PDT já é dada como certa por colegas de partido. Apesar de ainda brigar judicialmente para se manter como presidente no diretório cearense, o senador já admite a possibilidade de se desfiliar, mas ressalta que a decisão será tomada junto com aliados. Figueiredo, por sua vez, já expressou a intenção de expulsar Cid.>
Há dois partidos apontados como possível destino de Cid: Podemos e o PSB. No Ceará, as duas siglas têm dirigentes ligados a aliados próximos de Cid. O primeiro é comandado por Bismarck Maia, pai do deputado federal pedetista Eduardo Bismarck. No segundo, quem está à frente é o pai de Camilo Santana, Eudoro Santana.>
Quanto ao futuro de Ciro, a ideia do PDT é que ele continue no partido e atue para recuperar as perdas causadas pela briga com o irmão. Uma opção seria sua candidatura a deputado federal na eleição de 2026 para fortalecer a bancada pedetista na Câmara.>
Com a saída de Cid se consolidando, será a primeira vez em 33 anos que os irmãos não vão estar no mesmo partido.>
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