Publicado em 10 de novembro de 2021 às 15:21
O STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu nesta quarta-feira (10), por 8 votos a 2, suspender o pagamento das emendas de relator a deputados e senadores.>
Os ministros Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Luiz Fux votaram para manter a decisão monocrática proferida por Rosa Weber na última sexta-feira (5) para proibir o repasse dessas verbas.>
O ministro Gilmar Mendes votou para manter a execução das emendas, mas afirmou que, para isso, seria necessária a adoção de providências "para que sejam publicizadas as decisões das pastas ministeriais no que se refere ao acolhimento ou à rejeição das solicitações feitas pelos membros do Congresso Nacional".>
O ministro Kassio Nunes Marques, por sua vez, também defendeu a manutenção do pagamento das emendas de relator relativas a este ano e votou para determinar ao Congresso a criação de mecanismos para dar mais transparência à destinação dessas verbas a partir de 2022.>
>
O resultado do julgamento tem potencial para desencadear uma crise entre os Poderes e opor o Supremo ao Congresso e ao governo.>
Todos os ministros já votaram, mas a análise do caso ocorre no plenário virtual e só será concluída oficialmente às 23h59 de quarta-feira (10). Até este prazo, os magistrados podem mudar de posição, mas é incomum que isso aconteça.>
Segundo a decisão do STF, a execução dessas emendas deverá ser suspensa "integral e imediatamente". Além disso, o Congresso deverá dar "ampla publicidade, em plataforma centralizada de acesso públicos", a todos os documentos relacionados à distribuição dessas verbas em 2020 e 2021.>
A decisão afirma que os repasses deverão ser suspensos até que o STF julgue o mérito da ação do PSOL que está em discussão. No julgamento em curso, está em debate a concessão de ordem liminar (provisória) sobre o tema. Ainda não há data para análise do mérito do processo.>
As emendas de relator representavam a principal moeda de troca do governo em votações importantes no Congresso.>
O dinheiro disponível neste ano é de R$ 16,8 bilhões. Antes da aprovação da PEC do Calote, também chamada de PEC dos Precatórios, por exemplo, foram liberados R$ 1 bilhão em emendas desta natureza. Essa proposta, que foi aprovada pela Câmara e será discutida pelo Senado, permite a expansão de gastos públicos e viabiliza a ampliação do Auxílio Brasil prometido pelo presidente Jair Bolsonaro em ano eleitoral.>
A decisão do STF deve dificultar a vida do governo no Congresso e pode gerar uma crise entre os Poderes. O Palácio do Planalto já vinha enfrentando dificuldade para aprovar matérias que considera importantes, principalmente em temas que dependem de mudança na Constituição, o que exige apoio de 308 deputados.>
Além da questão dos precatórios, a reforma administrativa, por exemplo, precisa da mesma quantidade de votos no parlamento para ser aprovada.>
No julgamento, prevaleceu o voto da relatora, Rosa Weber. Ela fez duras críticas às emendas em questão e disse que elas, da forma como são executadas atualmente, violam os princípios constitucionais da "legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência".>
"Não há como saber quem são, de fato, os deputados federais e senadores componentes desse grupo incógnito, pois a programação orçamentária utilizada por esse fim identifica apenas a figura do relator-geral", disse.>
Segundo a ministra, essas emendas foram instituídas em 2006 com o propósito de "conferir ao relator-geral do projeto de lei orçamentária os poderes necessários à organização do conjunto de modificações introduzidas na proposta legislativa inicial".>
Em 2020, porém, elas ganharam novo formato. "Até o exercício financeiro de 2019, as despesas oriundas de emendas do relator não possuíam indicador de classificação orçamentária próprio", disse. Segundo ela, isso significa que, uma vez aprovado o projeto de lei orçamentária, "já não mais possível distinguir se as despesas nela previstas resultaram do projeto original ou de emenda do relator".>
Rosa Wever afirmou que "causa perplexidade a descoberta de que parcela significativa do orçamento da União Federal esteja sendo ofertada a grupo de parlamentares, mediante distribuição arbitrária entabulada entre coalizões políticas".>
Nos julgamentos no plenário virtual, os ministros têm a opção de apenas acompanhar a relatora ou podem incluir um voto por escrito no sistema. Apenas Rosa, Cármen, Gilmar e Kassio incluíram seus votos no sistema.>
Cármen também foi enfática nas críticas às emendas de relator. "A utilização de emendas orçamentárias como forma de cooptação de apoio político pelo Poder Executivo, além de afrontar o princípio da igualdade, na medida em que privilegia certos congressistas em detrimento de outros, põe em risco o sistema democrático".>
"Esse comportamento compromete a representação legítima, escorreita e digna, desvirtua os processos e os fins da escolha democrática dos eleitos, afasta do público o interesse buscado e cega ao olhar escrutinador do povo o gasto dos recursos que deveriam ser dirigidos ao atendimento das carências e aspirações",>
Gilmar, porém, afirmou que as verbas das emendas de relator já estão autorizadas e que a suspensão imediata pode gerar problemas na gestão do dinheiro público.>
O ministro ponderou que os recursos das emendas são "destinados à construção de hospitais, à ampliação de postos de atendimento ou a quaisquer outras finalidades de despesa primária que podem ser destinados a todas as unidades federativas nacionais e que terão sua execução simplesmente paralisada".>
O ministro disse ainda que "não se deve demonizar a priori o regime dealocação de recursos orçamentários por emendas parlamentares de relator,que são definidas a partir de acordos políticos em um contexto onde se faznecessário conciliar um conjunto de pleitos de diversos grupos de interesses".>
Kassio, por sua vez, reconheceu que falta transparência na execução dessas emendas, mas afirmou que a suspensão imediata das verbas seria prejudicial à gestão pública. Ele votou para determinar que o Congresso crie mecanismos a fim de ampliar, em 2022, a publicidade da destinação dessas verbas.>
"A falta de transparência inerente ao procedimento envolvendo referidas emendas, indicada até mesmo pelo TCU, atrai a necessidade de correção de rumos, com a exortação para que o Congresso proceda ao aprimoramento na busca pela concretização do princípio da publicidade", disse.>
Por meio de nota, o PSOL, autor da ação, comemorou a maioria formada até o momento. "A decisão do STF é importante para abreviar essa tragédia que é o governo Bolsonaro, pois comprova a forma corrupta e antidemocrático como ele e seus aliados operam", disse o presidente da sigla, Juliano Medeiros.>
Ele afirma que agora é necessário abrir uma CPI para apurar os gastos das emendas de relator a fim de "investigar os valores que já foram desviados para comprar parlamentares enquanto o povo morria sem vacina, comida e oxigênio".>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta