Publicado em 28 de abril de 2022 às 10:24
A pobreza na infância traz efeitos negativos no desenvolvimento das crianças, com mais riscos de mortalidade infantil, desnutrição crônica, baixa escolaridade e gravidez na adolescência, e, no futuro, queda no desenvolvimento intelectual. É o que mostra uma pesquisa da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), publicada em uma série de artigos da revista The Lancet, que analisou a associação entre a pobreza e desfechos de saúde e capital humano a partir de dados de 95 países.>
A série será lançada em um webinar nesta quinta-feira (28) em Londres, com participação do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Entre os pesquisadores, está o epidemiologista brasileiro Cesar Victora, líder da pesquisa da UFPel. O lançamento ocorre no momento em que há uma preocupação global sobre o impacto da pandemia de Covid-19 nas crianças. Os especialistas defendem que é urgente o desenvolvimento de políticas públicas contra a pobreza.>
No estudo da UFPel, os autores analisaram dados das seis maiores coortes de nascimentos de países em desenvolvimento (Brasil, com duas delas, Guatemala, Filipinas, África do Sul e Índia). Ao todo foram 15 mil crianças acompanhadas em um período entre 22 e 40 anos.>
Segundo Victora, as diferenças mais marcantes foram encontradas nos quocientes de inteligência (QI) dentro de duas das coortes de nascimentos de Pelotas, iniciadas em 1982 e 1993. Adultos expostos à pobreza extrema quando crianças apresentaram cerca de 20 pontos a menos no escore de QI do que as crianças do quintil mais rico.>
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Essas disparidades também foram observadas em crianças menores de cinco anos, indicando que fatores ligados à pobreza, como desnutrição e doenças infantis, têm impacto determinante sobre desigualdades de saúde e desenvolvimento intelectual dessas pessoas. "A preocupação é que isso perpetue as desigualdades sociais ao longo da vida. É muito difícil contornar isso, a não ser que a gente já atue na primeira infância", diz Victora.>
Os primeiros mil dias de vida, que incluem a gestação e os dois primeiros anos, são fundamentais para determinar a saúde e o capital humano durante toda a vida.>
O estudo avaliou dados de inquéritos nacionais dos 95 países por meio de dez categorias de renda (ou decis), cada qual incluindo 10% das crianças. Os resultados mostram que as crianças do decil mais pobre têm risco de duas a três vezes maior de morrer até os cinco anos de idade, ter baixa estatura e atraso de desenvolvimento cognitivo para a idade e não completar o ensino fundamental - e, entre as meninas, de ter filhos antes dos 20 anos de idade, quando comparadas a seus pares do decil mais rico.>
As análises indicam ainda que, quanto maiores as desigualdades socioeconômicas de um país, piores os resultados de saúde, nutrição e desenvolvimento cognitivo das crianças mais pobres. "Os efeitos persistem até a idade adulta. Isso é muito grave, pois compromete tanto a sobrevivência quanto a qualidade de vida e a capacidade produtiva de futuras gerações de crianças, adolescentes e adultos", afirma Victora.>
Para o epidemiologista, é essencial que os gestores de políticas públicas reconheçam a importância dos riscos associados à pobreza e trabalhem para a criação de programas multissetoriais que garantam apoio social, nutricional e assistencial a crianças, adolescentes e jovens, desde o início da gestação.>
Segundo Victora, no âmbito global, a pobreza vinha em ritmo de queda na última década, mas a pandemia de Covid-19 piorou muito a situação. "Os governos, as agências internacionais, os grandes financiadores precisam renovar os esforços para alcançar essas crianças de famílias pobres e compensar, pelo menos em parte, os efeitos daninhos dessa pandemia de Covid sobre os mais vulneráveis.">
O impacto a longo prazo da pandemia nas crianças e famílias ainda não é totalmente conhecido. Mas as evidências sugerem que, possivelmente, as interrupções no acesso das crianças a serviços preventivos de saúde e educação resultarão em excesso de mortalidade e morbidade dessas populações, prejudicando os ganhos conquistados nos últimos anos.>
Em um comentário vinculado à publicação no The Lancet, Tedros Ghebreyesus, da OMS, e Catherine Russell, do Unicef, dizem: "É tempo de a solidariedade triunfar sobre a política, pelo bem das nossas crianças e das gerações futuras. Não fazer isso pode resultar em cerca de 21 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 24 anos e 43 milhões de crianças menores de cinco anos morrendo antes de 2030".>
Segundo Richard Horton, editor-chefe do The Lancet, "a história de sucesso mais extraordinária na história recente da saúde global foi o rápido declínio nas mortes de crianças menores de cinco anos, mas, apesar das vidas salvas, milhões de crianças ainda morrem de causas evitáveis".>
"Aqueles que sobrevivem continuam incapazes de atingir todo o seu potencial. [Precisamos] de compromisso político. Precisamos que os líderes das agências multilaterais, governos e sociedade civil enfrentem os desafios que esta série [de artigos] apresenta e as oportunidades que ela descreve", conclui.>
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