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Fernando Madeira
Pobreza no ES

Retrato da pobreza, barracos escondem sonhos de mães e crianças no ES

A estrutura precária de moradia evidencia a desigualdade social que atinge milhares de famílias. O desejo delas é básico:  oportunidade para restaurar sua dignidade

Aline Nunes

Repórter

Publicado em 15 de Março de 2022 às 08:06

Publicado em

15 mar 2022 às 08:06
Especial Pobreza no ES: Maria das Graças Machado, a Gracinha
Maria das Graças Machado, mãe de duas crianças e avó de outras duas que moram com ela, sonha com a melhoria da sua casa Crédito: Fernando Madeira / Arte: Geraldo Neto
A moradia precária em barracos de madeira ou de alvenaria mal-acabada é um retrato da pobreza que assola o país e revela-se como mais um aspecto de difícil superação das desigualdades. Por outro lado, esconde sonhos de mães e crianças, como o de Maria das Graças Machado, a Gracinha, que não se cansa de repetir que deseja ter a "casa ajeitadinha" para seus filhos. 
Morar sob um teto digno, sem o medo constante de a casa desabar numa chuva mais forte, nem ser obrigada a conviver com os ratos que, hoje, circulam por entre os poucos móveis. Esse é o maior sonho de Gracinha, que se arrisca a dizer que poderia até morrer se tivesse condições de deixar um imóvel seguro para os filhos - de 28, 10 e 9 anos, mais duas netas, de 6 e um ano, todos vivendo no mesmo espaço de paredes com rachaduras, telhado com goteiras e sem sustentação adequada. 
"Eu tenho medo de estar dormindo e a casa cair", desabafa Gracinha, que mora em Boa Vista, Vila Velha. Não bastasse a dificuldade da moradia, a alimentação da família também é restrita e garantida, basicamente, por atos de solidariedade. Na geladeira tomada por garrafas de água, o que tinha para comer eram ovos, única "mistura" que consegue comprar, e carne cozida doada. 
Também moradora do município, Ivani Lopes dos Santos tem aspirações que passam por mais oportunidades e, consequentemente, melhores condições de vida. Mesmo na simplicidade de seus dias em Vale da Conquista, ela abriu a porta de sua casa - uma estrutura frágil de tapumes de madeira, erguida sobre o chão batido e dividida em dois cômodos: cozinha e quarto, este ocupado pelos seis membros da família. Faltam a privacidade e o conforto.
Especial Pobreza - Ivani Lopes dos Santos com a filha Bianca dos Santos Silva e as netas Carla Eloá e Laura Sofia, em Vale da Conquista, Vila Velha
Ivani Lopes dos Santos com a filha Bianca dos Santos Silva e as netas Carla Eloá e Laura Sofia, em Vale da Conquista, Vila Velha: família mora em barraco de dois cômodos Crédito: Fernando Madeira
Ivani gostaria de trabalhar e ter uma renda garantida no fim do mês, mas, com dificuldade para conseguir uma colocação, ocupa-se dos cuidados com os três netos - a mais velha com pouco mais de 2 anos.
"A gente não consegue um trabalho e, aí, as coisas ficam mais difíceis do que já são. A gente recebe doação de cesta básica, que ajuda a colocar comida em casa"
Ivani Lopes dos Santos - Dona de casa
Assim como Ivani, o emprego é o que deseja Natasha Estefany Lopes Moreira para melhorar o cotidiano, sobretudo o da filha Maria Clara. A menina, que nos recebeu em casa com a mãe, havia acabado de ganhar um brinquedo em uma ação social na comunidade e mostrava feliz sua conquista, de peças incompletas.
Especial Pobreza - Maria Clara
Maria Clara brinca feliz com o jogo que ganhou numa ação social Crédito: Fernando Madeira
Natasha, que vive sobretudo de doações, quer a oportunidade de completar o que falta à filha, nas brincadeiras e na vida. "Se tivesse um trabalho, acho que não ia ficar tão preocupada se vai chegar uma cesta básica, por exemplo. Mas as coisas estão muito difíceis", lamenta.
Gleiciane dos Santos Brito, moradora da Fonte Grande, em Vitória, até começou a construir sua casa de alvenaria. Ergueu algumas paredes com a ajuda do pai, que é pedreiro, mas parou devido à falta de dinheiro.
Dentro, o pequeno espaço é separado por tecidos e cobertas. Assim como tantas mães, Gleiciane quer um emprego para realizar um sonho pessoal de ter sua casa pronta, ao mesmo tempo em que atende a um pedido do filho mais velho, já adolescente, que gostaria de ter um quarto só para ele.
"O meu desejo mesmo é terminar essa casa, dar uma ajeitada. É o sonho de toda mulher ter sua casa feita, reformada"
Gleiciane  dos Santos Brito  - Desempregada

FAMÍLIAS VULNERÁVEIS

Professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ednelson Mariano Dota iniciou um estudo na área de empobrecimento da população. Ele conta que o projeto visa compreender o contexto da pobreza e pensar políticas públicas para as famílias vulneráveis.
“Quando a gente fala da pobreza, há várias formas de medir e de classificar as pessoas nessas escalas. A mais comum e utilizada é a vulgarmente chamada de linha de pobreza, geralmente definida a partir dos recursos que dispõem para comprar”, pontua.
Mas, quando se fala em vulnerabilidade à pobreza, continua o professor, há outros elementos a se considerar. “O lugar em que se vive, as condições de habitação, o acesso a serviços públicos. Passamos a inserir outros elementos que tornam a medida de pobreza multivariada; muitas variáveis para realmente entender a condição de cada um e pensar em soluções”, acrescenta.
Esse olhar é necessário porque, segundo explica Ednelson, muitas vezes duas pessoas têm a mesma renda, mas condições diferentes que a tornam mais vulnerável.
Dependendo do local, por exemplo, podem sofrer pelos riscos de deslizamento, de alagamento e outros aspectos que tornam o cotidiano ainda mais difícil para além da falta de dinheiro.
A dona de casa Maria de Lourdes Efigênia dos Santos, 56, retrata bem essa realidade. Morando com o companheiro em um barraco de madeira emprestado, em Vale da Conquista, vive sob tensão em todos os dias de chuva.
Caprichosa, está sempre varrendo o terreno de chão batido onde mora e cuida das plantas para dar um pouco de alegria à dura rotina, mas, se o céu está nublado, já é motivo de aflição porque a cobertura de sua casa não é capaz de conter qualquer volume de água. Se chove, molha tudo.
"Aqui molha quando chove, e a gente tem que colocar panela em vários lugares da casa para não ficar no meio da chuva. O barraco não tem piso, é chão, e a gente não tem condições de melhorar"
Maria de Lourdes Efigênia dos Santos - Dona de casa
Especial Pobreza - Maria de Lourdes Efigênia dos Santos
Ao primeiro sinal de chuva, Maria de Lourdes fica aflita porque o barraco emprestado está cheio de goteiras Crédito: Fernando Madeira

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