Publicado em 2 de abril de 2025 às 08:50
O Brasil registrou o primeiro paciente infectado por Trichophyton indotineae, fungo resistente a antifúngicos, atendido em Piracicaba, no interior de São Paulo, em agosto de 2024. O caso foi publicado em fevereiro deste ano na revista Anais Brasileiros de Dermatologia, pela equipe da Santa Casa de São Paulo, em parceria com o Instituto de Medicina Tropical da USP (Universidade de São Paulo). A transmissão ocorre por contato direto com pessoas ou objetos contaminados.>
O Trichophyton indotineae é um tipo de dermatófito, ou seja, um fungo que causa infecções na pele. O paciente, que já chegou infectado ao Brasil, é um homem de 40 anos que vive em Londres e havia viajado por países da Europa e da Ásia, regiões onde o fungo circula há alguns anos.>
"O paciente apresentava lesões de pele extensas, com muita coceira e que não melhoravam com os tratamentos tradicionais. A médica dermatologista que o atendeu suspeitou de uma infecção incomum ao observar o aspecto das lesões, a resistência aos medicamentos prescritos, o fungo identificado no exame coletado e o histórico de viagens", explica John Veasey, um dos autores da pesquisa e coordenador do Departamento de Micologia da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia).>
Quando o paciente recebeu o diagnóstico de infecção fúngica, iniciou o tratamento com o antifúngico terbinafina, comumente usado nesses casos, mas sem melhora. O tratamento foi ajustado com outro antifúngico, o que resultou em remissão completa, mas os sintomas voltaram após a interrupção do tratamento. Hoje, segue em tratamento, mas em Londres.>
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Segundo Veasey, as infecções causadas por Trichophyton indotineae costumam ser mais difíceis de tratar do que outras micoses de pele porque são lesões mais extensas, que causam bastante coceira e têm maior chance de se tornarem crônicas ou de voltarem após o uso da medicação, mesmo em pacientes saudáveis que realizam o tratamento adequado prescrito pelo dermatologista.>
O fungo apresenta maior resistência aos medicamentos antifúngicos mais usados, como a terbinafina. Por isso, o tratamento costuma ser mais longo, e nem sempre há uma resposta completa logo nas primeiras tentativas, tornando o controle da infecção mais desafiador.>
Até agora, há apenas um caso confirmado no Brasil, importado do exterior. Embora não haja transmissão local, a experiência de outros países indica um alto potencial de disseminação. Por isso, a vigilância e o diagnóstico precoce são essenciais para evitar que a infecção se torne um problema de saúde pública, alerta o médico e professor da Santa Casa de São Paulo.>
O pesquisador afirma que não existem protocolos específicos nem ações de vigilância ativa voltadas para esse fungo no Brasil. Entre as medidas importantes para evitar a disseminação, ele cita o investimento em testes laboratoriais mais avançados, como os de biologia molecular, que ajudam a identificar o fungo com precisão, além da capacitação dos profissionais de saúde para reconhecer os casos, que muitas vezes fogem do padrão das micoses mais comuns.>
"Também é essencial orientar a população sobre os riscos da automedicação, especialmente com pomadas que misturam corticoides e antifúngicos, que podem mascarar os sintomas e dificultar o tratamento.">
O Trichophyton indotineae foi descrito pela primeira vez em 2020, na Índia, e os relatos internacionais ainda são recentes. Veasey destaca, no entanto, que não é raro as micoses comuns terem um curso prolongado ou recidivante.>
"O fato de o paciente estar lidando com uma micose difícil de tratar há anos não significa, necessariamente, que ele esteja infectado por esse novo fungo. O diagnóstico correto depende de uma avaliação clínica criteriosa e, em casos selecionados, de exames mais avançados", acrescenta.>
Membro da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Felipe Prohaska explica que pessoas com o sistema imunológico comprometido são mais atingidas pela infecção grave. São mais vulneráveis pacientes com HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) não controlado, câncer ou que estão internados, por exemplo.>
O gênero Trichophyton, explica o médico, é um grupo de fungos dermatófitos que causam infecções na pele, cabelos e unhas, alimentando-se de queratina. A transmissão ocorre por contato direto com pessoas ou objetos contaminados. Algumas espécies, como Trichophyton rubrum e Trichophyton mentagrophytes, são comuns e tratáveis com antifúngicos, mas outras, como o Trichophyton indotineae, apresentam resistência a medicamentos, o que dificulta o tratamento.>
O Trichophyton indotineae não está associado a alta mortalidade, mas pode causar complicações em imunocomprometidos. Nesses casos, o fungo pode ultrapassar a barreira da pele já fragilizada e atingir a corrente sanguínea, levando a infecções para outros órgãos.>
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