Os mananciais urbanos foram diretamente afetados pelo crescimento das cidades no Brasil, principalmente a partir da década de 1950, devido a diversos fatores econômicos e sociais, como o êxodo rural, que trouxe milhares de pessoas para as cidades. No Espírito Santo, diversos rios foram destruídos pelo avanço da população em suas margens, sendo poluídos ou tamponados pelo poder público para se transformarem em vias rodoviárias.
O mais emblemático desses casos de degradação hídrica ambiental, sem dúvida, é o Rio da Costa, em Vila Velha, que foi um dos atores fundamentais no processo de colonização do nosso Estado.
Quando os portugueses chegaram à Prainha com seus navios, adentraram no novo e inóspito território em barcos menores pelo leito do rio e montaram o primeiro núcleo populacional, tirando proveito do então exuberante rio.
Uma história bonita que durou séculos e que se perdeu com o tempo. Quem tem menos de 60 anos só conhece o rio como é hoje, em forma de canal retificado, e não sabe que em época de cheias ele ligava a Baía de Vitória ao Rio Jucu, fazendo um trajeto sinuoso de 10 quilômetros, paralelo à costa canela-verde. Se tivesse sido preservado com suas áreas de inundação e uma urbanização planejada, teríamos minimizado no município o impacto das cheias com as chuvas e, com certeza, teríamos uma cidade ainda mais bonita.
A triste situação em que se encontra hoje, totalmente poluído, servindo apenas para transportar esgoto e escoar águas de chuva, o transforma em um vilão. Isso porque a maré alta na Baía de Vitória e as chuvas mais fortes trazem uma reação do canal, que tem suas margens reduzidas e impermeabilizadas por construções, inundando vias e casas ao longo de seu trajeto.
Os bons exemplos urbanísticos pelo mundo mostram que revigorar os rios urbanos é um dos caminhos para reconciliação entre a população e seus mananciais hídricos, contribuindo para solucionar problemas ambientais, sociais e econômicos ao longo de seu percurso.
A retomada da relação harmônica entre o rio e a cidade de Vila Velha passa pelo entendimento da importância de projetos urbanísticos desenvolvidos pelos arquitetos e demais técnicos, com apoio dos órgãos públicos e da participação popular, no sentido de resgatar esse valioso espaço dentro do tecido urbano municipal.
*O autor é mestre em Arquitetura e urbanista