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Eustáquio Palhares

Artigo de Opinião

É jornalista
Eustáquio Palhares

Por que não redirecionar salas comerciais vazias para funções residenciais?

Os próprios edifícios poderiam instituir modelo híbrido que conciliasse as duas funções, residencial e profissional, embora essa alternativa sugira dificuldades culturais mais resilientes e protocolos de convivência mais rigorosos
Eustáquio Palhares
É jornalista

Publicado em 30 de Dezembro de 2022 às 10:00

Publicado em 

30 dez 2022 às 10:00
Paradigmas ou crenças que se internalizam até o nível do que consideramos “normalidade”, temos aprendido muito com a identificação desses padrões, de modo que muito se aprende sobre suas rupturas e instabilidades. Principalmente com o advento de uma cultura de inovação que se erige exatamente na perspectiva da disrupção.
Assim são os paradigmas. Padrões que se replicam inercialmente perenizando-se até que alguns baques de uma nova realidade lhes imponham questionamento. A par da apreensão e de sua dimensão trágica, a Covid promoveu a aceleração ou a catalisação de mudanças que já estavam em curso no ritmo histórico inerente a cada transformação. Inclusive a reavaliação de nossos padrões inerciais.
Um deles já está colocado há tempos, mas desde as primeiras provocações rebate na questão cultural que é o enraizamento de padrões que mesmo questionáveis sobrevivem por um comportamento de acomodação. A dinâmica urbana deverá refletir também uma nova relação da cidade com os seus habitantes com as várias funções do aglomerado urbano migrando para espaços onde se exercem de modo mais adequado por estarem melhor aparelhados e, por isso, serem mais atrativos.
Uma delas, clamada há tempos, é a relação da cidade com o carro, o espaço que se concede a um modal de transporte individualista, egoísta por isso, elemento central da mobilidade urbana mesmo ante a explícita incapacidade da urbe assimilar a permanente expansão da frota numa estrutura viária limitada.
O financiamento de intervenções viárias, todas, poderia ser redirecionado para a estruturação do transporte de massas e a micromobilidade – que humanizaria mais a cidade com a progressiva restrição do carro até a sedimentação da nova e cada vez mais inadiável cultura.
Um dos aspectos descortinados pelos novos tempos pós Covid é o do uso do solo urbano. Desde a crise de 2015, o mercado imobiliário experimentou a brutal retração da demanda causada pelo desaquecimento econômico. O advento da Covid instaurou novos modos, inclusive a consolidação do home office determinada em um primeiro momento pelo lockdown, o confinamento prescrito como suposto meio de se defender da doença.
As pessoas então se deram conta de que a conectividade instantânea e universal permite que operem, funcionem, produzam do mesmo modo como o fariam nos ambientes convencionais de trabalho. E aí um novo olhar sobre esses ambientes.
Há vantagens e desvantagens por se tratar de uma cultura que demanda assimilação de novos hábitos, adoção de novos protocolos e etiquetas, mas o certo é que o home office evidenciou a irracionalidade de cumprir uma jornada de trabalho que demanda deslocamentos, disponibilidade de transporte, estacionamento, manutenção do escritório, estrutura local.
O contrapeso seria a perda de uma socialização que sempre pode induzir sinergias e senso de pertencimento pela proximidade física. Mas parece que o home office, mesmo mesclado como jornada híbrida, é irreversível.
Sendo o espaço urbano tão nobre e consequentemente dispendioso, tendo absorvido investimentos sem perspectivas de retorno para suas funções originais – o que afeta seu valor patrimonial – e quando se vê que nos grandes centros mundiais a rarefação dos espaços bem estruturados levou a modos restritíssimos de ocupação, com espaços de moradia de 15 metros quadrados, por que não cogitar de redirecionar a função comercial de tanta sala hoje vazia na Grande Vitória para funções residenciais?
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Crédito: Shutterstock
Pessoas solteiras ou jovens casais poderiam encontrar nas salas ociosas alternativa de moradia confortável e funcional. Famílias maiores certamente exigiriam espaços mais amplos, mas ainda assim, ante a farta disponibilidade de imóveis pouco demandados para as funções originais (comerciais), poderiam ser atendidas pela agregação de salas contíguas.
Os próprios edifícios poderiam instituir modelo híbrido que conciliasse as duas funções, residencial e profissional, embora essa alternativa sugira dificuldades culturais mais resilientes e protocolos de convivência mais rigorosos.
Certamente as posturas urbanas deveriam ser adaptadas às novas funções dos imóveis assim como as convenções condominiais. Mas é certo que essa readequação de funções supriria o déficit habitacional urbano sem prejuízo do valor patrimonial do bem.
Representaria também um vigoroso impulso de humanização das cidades cujas áreas comerciais experimentam a segregação dos períodos de inatividade. Uma habitação de 30 metros quadrados no Centro de São Paulo ou qualquer grande metrópole internacional, Nova York, Londres ou Tóquio, é tido – e valorizado – como um espaço que provê plenamente a necessidade de habitação das pessoas. As coisas têm que ser como sempre foram, mesmo com o desaparecimento da forma que as modelou?
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