A recente aprovação, pelo Senado, do projeto que amplia a licença-paternidade no Brasil reacende um debate necessário sobre família, igualdade e responsabilidade compartilhada. A proposta prevê que o afastamento do trabalho, atualmente limitado a cinco dias, seja ampliado gradualmente até chegar a 20 dias, além da criação do chamado salário-paternidade, pago pela Previdência Social. O texto agora segue para sanção presidencial.
Embora possa parecer um avanço simples, a medida representa uma mudança profunda na forma como o Estado brasileiro enxerga a paternidade. Durante décadas, a legislação tratou o cuidado com os filhos quase exclusivamente como responsabilidade materna. O pai, muitas vezes, foi reduzido a uma figura secundária nos primeiros dias de vida da criança, justamente um dos períodos mais importantes para a formação de vínculos afetivos e para a organização da dinâmica familiar.
A ampliação da licença-paternidade sinaliza uma evolução cultural e jurídica. Ao permitir que o pai permaneça mais tempo ao lado do recém-nascido ou da criança adotada, a política pública fortalece a ideia de corresponsabilidade no cuidado familiar. Essa mudança não beneficia apenas os pais, mas também as mães, que deixam de carregar sozinhas o peso da adaptação ao nascimento do filho e da reorganização da rotina doméstica.
Do ponto de vista jurídico, a medida dialoga diretamente com princípios constitucionais como a proteção à família, a dignidade da pessoa humana e a igualdade entre homens e mulheres. A própria regulamentação da licença-paternidade era uma lacuna histórica: desde a Constituição de 1988, o direito existia apenas de forma provisória, sem regulamentação adequada.
Além disso, ampliar o tempo de convivência do pai com o filho nos primeiros dias de vida não é apenas uma questão afetiva. Diversos estudos apontam que a presença paterna contribui para o desenvolvimento emocional da criança, fortalece vínculos familiares e ajuda a construir relações mais equilibradas ao longo da vida.
Mais do que uma alteração legislativa, a extensão da licença-paternidade é um convite para repensarmos o papel do pai na sociedade contemporânea. Ser pai não deve significar apenas prover, mas também cuidar, participar e construir vínculos desde o início da vida.
Por isso, a discussão não deve terminar com a aprovação da lei. É preciso acompanhar sua implementação e continuar avançando em políticas públicas que valorizem a presença ativa dos pais na criação dos filhos. Uma sociedade mais justa começa dentro de casa, e reconhecer o direito de ser um pai presente é um passo fundamental nessa direção.
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