Os dados recentes sobre a queda no número de passageiros do Sistema Transcol, na Grande Vitória, revelam mais do que uma mudança de comportamento. Eles expõem uma crise de confiança: quando o transporte público não oferece qualidade, previsibilidade e conforto, a população busca saídas. O que vemos hoje não é apenas uma modernização de hábitos, mas uma resposta prática à perda de qualidade de um sistema que já não acompanha a vida real.
Durante décadas, o sonho de consumo das famílias brasileiras era o carro próprio, símbolo máximo de liberdade diante de um transporte coletivo precário. Mas, com os altos custos de aquisição e manutenção, esse escape se tornou inviável para grande parte da população.
É nesse vácuo que a bicicleta elétrica e o transporte por aplicativo ganham força. Eles oferecem uma alternativa mais ágil e financeiramente mais acessível para quem já não aceita esperar por longos períodos, sob o sol de avenidas sem arborização e expostas à poluição automotiva, para pagar caro por um serviço que muitas vezes não conecta os pontos necessários da cidade.
A bicicleta elétrica, em especial, responde a uma dinâmica que o planejamento tradicional costuma ignorar: a complexidade das rotas cotidianas. Pense na rotina de muitas mães: elas precisam deixar o filho na escola, seguir para o trabalho, fazer compras, buscar a criança e resolver demandas domésticas antes de voltar para casa.
Para esse trajeto fragmentado e cheio de paradas, o ônibus rígido é ineficiente. A autonomia da bicicleta elétrica permite que essa "cidade de 15 minutos”, onde serviços e empregos estão distribuídos pelos bairros, se torne uma realidade possível para o cidadão, mesmo quando o desenho urbano não é favorável.
Para que essa pluralidade de modais funcione, precisamos de projetos de infraestrutura que realmente "costurem" a cidade. Infraestrutura de qualidade é o que buscamos, mas ela só cumpre seu papel quando o projeto nasce conectado aos bairros existentes e com a vida cotidiana das pessoas.
Um exemplo é a ciclovia da Avenida Norte-Sul, ao lado do Aeroporto de Vitória. Embora seja uma estrutura importante, ela ainda carece de melhor integração com o entorno, especialmente com as áreas residenciais de Jardim Camburi. Sem essa capilaridade, a infraestrutura perde parte do seu potencial e deixa de funcionar como rede.
Nenhuma metrópole funciona sem um transporte público de massa que seja a espinha dorsal do sistema. Para a Grande Vitória, isso significa pensar a mobilidade em rede. Ônibus, aquaviário, bicicletas, caminhada e transporte por aplicativo precisam dialogar entre si. Isso exige integração física e tarifária, áreas de espera mais confortáveis, pontos seguros de embarque e desembarque, ciclovias conectadas, uso de tecnologia para previsão de horários e, no horizonte, soluções estruturantes, como um VLT que permita inclusive o transporte de bicicletas em percursos mais longos.
Nesse cenário, o debate sobre a tarifa zero ganha urgência: mais do que um benefício social, ela é um impulsionador da economia local, permitindo que o cidadão de baixa renda acesse postos de saúde, escolas, serviços e lazer sem que o custo do deslocamento seja uma barreira.
Também é preciso reconhecer que o desenho urbano influencia diretamente a forma como nos deslocamos. Cidades com boas calçadas, arborização, sombreamento e serviços distribuídos pelos bairros tornam a caminhada, a bicicleta e o transporte coletivo mais atraentes. Quanto mais compacta, conectada e acolhedora for a cidade, menor será a dependência de deslocamentos longos, caros e cansativos.
Essa nova dinâmica exige organização. O crescimento das bicicletas elétricas por exemplo precisa de regras claras para coibir a violência no trânsito e proteger o pedestre nas calçadas. O desafio não é combater os novos modais, mas qualificar o sistema urbano para que o direito à cidade seja acessível a todos.
Faço aqui um apelo aos gestores públicos: mobilidade não se resolve apenas com obras pontuais, mas com planejamento técnico, escuta ativa e visão metropolitana. É fundamental incluir arquitetos e urbanistas na linha de frente dessas decisões. Somente com técnica, escuta ativa e projetos participativos transformaremos a infraestrutura em um sistema que garanta, finalmente, o direito à cidade para todos.
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