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É presidente do CAU/ES

Ônibus do Transcol já não conseguem acompanhar a vida real

Nenhuma metrópole funciona sem um transporte público de massa como espinha dorsal do sistema. Para a Grande Vitória, isso significa pensar a mobilidade em rede. Ônibus, aquaviário, bicicletas, caminhada e transporte por aplicativo precisam dialogar entre si

  • Priscila Ceolin É presidente do CAU/ES
Publicado em 17/03/2026 às 15h10

Os dados recentes sobre a queda no número de passageiros do Sistema Transcol, na Grande Vitória, revelam mais do que uma mudança de comportamento. Eles expõem uma crise de confiança: quando o transporte público não oferece qualidade, previsibilidade e conforto, a população busca saídas. O que vemos hoje não é apenas uma modernização de hábitos, mas uma resposta prática à perda de qualidade de um sistema que já não acompanha a vida real.

Durante décadas, o sonho de consumo das famílias brasileiras era o carro próprio, símbolo máximo de liberdade diante de um transporte coletivo precário. Mas, com os altos custos de aquisição e manutenção, esse escape se tornou inviável para grande parte da população.

É nesse vácuo que a bicicleta elétrica e o transporte por aplicativo ganham força. Eles oferecem uma alternativa mais ágil e financeiramente mais acessível para quem já não aceita esperar por longos períodos, sob o sol de avenidas sem arborização e expostas à poluição automotiva, para pagar caro por um serviço que muitas vezes não conecta os pontos necessários da cidade.

Ponto de ônibus destruído pelo Transcol na Rodovia Carlos Lindenberg
Ponto de ônibus em Vila Velha. Crédito: Ricardo Medeiros

bicicleta elétrica, em especial, responde a uma dinâmica que o planejamento tradicional costuma ignorar: a complexidade das rotas cotidianas. Pense na rotina de muitas mães: elas precisam deixar o filho na escola, seguir para o trabalho, fazer compras, buscar a criança e resolver demandas domésticas antes de voltar para casa.

Para esse trajeto fragmentado e cheio de paradas, o ônibus rígido é ineficiente. A autonomia da bicicleta elétrica permite que essa "cidade de 15 minutos”, onde serviços e empregos estão distribuídos pelos bairros, se torne uma realidade possível para o cidadão, mesmo quando o desenho urbano não é favorável.

Para que essa pluralidade de modais funcione, precisamos de projetos de infraestrutura que realmente "costurem" a cidade. Infraestrutura de qualidade é o que buscamos, mas ela só cumpre seu papel quando o projeto nasce conectado aos bairros existentes e com a vida cotidiana das pessoas.

Um exemplo é a ciclovia da Avenida Norte-Sul, ao lado do Aeroporto de Vitória. Embora seja uma estrutura importante, ela ainda carece de melhor integração com o entorno, especialmente com as áreas residenciais de Jardim Camburi. Sem essa capilaridade, a infraestrutura perde parte do seu potencial e deixa de funcionar como rede.

Nenhuma metrópole funciona sem um transporte público de massa que seja a espinha dorsal do sistema. Para a Grande Vitória, isso significa pensar a mobilidade em rede. Ônibus, aquaviário, bicicletas, caminhada e transporte por aplicativo precisam dialogar entre si. Isso exige integração física e tarifária, áreas de espera mais confortáveis, pontos seguros de embarque e desembarque, ciclovias conectadas, uso de tecnologia para previsão de horários e, no horizonte, soluções estruturantes, como um VLT que permita inclusive o transporte de bicicletas em percursos mais longos.

Nesse cenário, o debate sobre a tarifa zero ganha urgência: mais do que um benefício social, ela é um impulsionador da economia local, permitindo que o cidadão de baixa renda acesse postos de saúde, escolas, serviços e lazer sem que o custo do deslocamento seja uma barreira.

Também é preciso reconhecer que o desenho urbano influencia diretamente a forma como nos deslocamos. Cidades com boas calçadas, arborização, sombreamento e serviços distribuídos pelos bairros tornam a caminhada, a bicicleta e o transporte coletivo mais atraentes. Quanto mais compacta, conectada e acolhedora for a cidade, menor será a dependência de deslocamentos longos, caros e cansativos.

Essa nova dinâmica exige organização. O crescimento das bicicletas elétricas por exemplo precisa de regras claras para coibir a violência no trânsito e proteger o pedestre nas calçadas. O desafio não é combater os novos modais, mas qualificar o sistema urbano para que o direito à cidade seja acessível a todos.

Faço aqui um apelo aos gestores públicos: mobilidade não se resolve apenas com obras pontuais, mas com planejamento técnico, escuta ativa e visão metropolitana. É fundamental incluir arquitetos e urbanistas na linha de frente dessas decisões. Somente com técnica, escuta ativa e projetos participativos transformaremos a infraestrutura em um sistema que garanta, finalmente, o direito à cidade para todos.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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