A recente divulgação do diagnóstico de uma doença grave e sem cura do especialista em aviação e influenciador Lito Sousa promoveu uma onda de comoção, ganhou as redes sociais, os meios de comunicação e as conversas. Sentimentos como tristeza, compaixão, medo e perplexidade parecem nos rondar junto com a própria notícia.
Afinal, ver alguém ainda jovem, ativo e cheio de planos se deparar com o imprevisível e o imponderável nos confronta também com nossas próprias fragilidades.
Talvez, por isso, além, é claro, do carisma e da “familiaridade” com a figura de Lito, histórias assim nos afetem tanto. Elas nos lembram de algo que sabemos, mas que preferimos manter a certa distância: nem tudo está sob nosso controle.
Um diagnóstico pode chegar sem aviso e exigir uma mudança de rota, alterando planos, expectativas e a própria maneira como imaginávamos o futuro e a vida, seja a nossa própria, seja a de alguém querido e próximo.
E, na geriatria, esse é um tema especialmente presente. Não necessariamente porque os diagnósticos sejam sempre inesperados, mas porque o avanço da idade aumenta a probabilidade de convivermos com doenças crônicas e, eventualmente, com condições progressivas. E, diante delas, uma das primeiras distinções que precisamos fazer é entre cura e cuidado.
Uma doença não ter cura não significa necessariamente que ela não tenha tratamento ou controle. Existem, sim, doenças raras e ainda não totalmente desvendadas pela ciência, mas elas são a exceção. O dia a dia é feito de doenças crônicas, conhecidas e passíveis de controle.
São condições que, muitas vezes, acompanham as pessoas durante anos e podem ser manejadas com medicamentos, monitoramento adequado, mudanças de hábitos e outras intervenções. E, mesmo diante de doenças degenerativas, cuja progressão pode ser inevitável, há muito que a medicina e uma rede de cuidado podem fazer.
É possível tratar sintomas, reduzir desconfortos, prevenir complicações, adaptar rotinas e ambientes, preservar capacidades pelo maior tempo possível e oferecer suporte para que aquela pessoa continue participando das decisões sobre a própria vida.
Na geriatria, cuidar significa olhar não apenas para a doença, mas para a funcionalidade, a autonomia, os vínculos, os desejos e aquilo que dá sentido à vida de cada indivíduo.
Isso também exige compreender que o melhor tratamento nem sempre será aquele que busca fazer tudo o que tecnicamente é possível. Em determinados momentos, a pergunta mais importante deixa de ser apenas “o que podemos fazer contra essa doença?” e passa a incluir “o que podemos fazer por essa pessoa?”. São perguntas parecidas, mas não iguais.
Para a família, essa mudança de perspectiva também pode ser difícil. Diante de um diagnóstico grave, existe uma tendência natural de concentrar todas as forças na tentativa de modificar o curso da doença. Mas cuidar também é reorganizar expectativas, aprender novas formas de estar junto, reconhecer limites e buscar ajuda. É construir, dentro de uma realidade que não foi escolhida, as melhores condições possíveis para continuar vivendo.
Talvez seja essa uma das lições mais importantes quando a vida nos impõe uma mudança de rota. Há situações sobre as quais teremos pouco ou nenhum controle. Mas, entre controlar a doença e se render a ela, existe um território enorme chamado cuidado. E ele fará toda a diferença.