O manguezal é um laboratório vivo, objeto de pesquisa há décadas e de descaso há séculos. Quando o nível do mar subir, e as projeções climáticas indicam que vai, aquele mangue não terá para onde recuar. Não há espaço. E os maiores manguezais do Brasil estão situados nas grandes regiões metropolitanas.
Esses ecossistemas prestam serviços imensuráveis à sociedade gratuitamente: proteção contra a erosão costeira, berçário de espécies pesqueiras, sequestro de carbono, amortecimento de tempestades e filtração de poluentes. São também fonte de alimento desde os povos originários, como atestam os sambaquis no litoral capixaba.
A invisibilidade desses benefícios tem um custo. Os manguezais brasileiros acumulam cerca de 1,9 bilhão de toneladas de CO2, estoque avaliado em quase R$ 49 bilhões no mercado de carbono, segundo estudo da Fundação Grupo Boticário de outubro de 2024.
Só a área metropolitana de Vitória armazena cerca de 218.648 toneladas de carbono acima do solo. Além disso, organismos e plantas dos manguezais da Baía de Vitória capturam e filtram pesticidas, herbicidas, sedimentos e derivados de petróleo, segundo estudos do Laboratório de Gestão dos Manguezais da Ufes São Mateus e do Laboratório de Limnologia em Goiabeiras. Sem essa biorremediação, a baía e as praias próximas estariam significativamente mais contaminadas.
O dinheiro, no entanto, só flui quando há projeto. Mas uma palavra ainda soa estranha para quem milita na causa ambiental: bancabilidade. Os benefícios sociais dos recursos naturais têm valor zero nessa contabilidade, embora os custos de sua ausência sejam imensos e se repartam entre todos.
O mecanismo de blended finance, que combina recursos públicos ou filantrópicos com capital privado para absorver o risco inicial, é uma das ferramentas mais promissoras para ampliar o acesso a financiamento sem sacrificar a integridade socioambiental.
No Norte do Espírito Santo, um projeto de restauração de cerca de 600 hectares de manguezal nos rios Piraquê-Açu e Piraquê-Mirim, em Aracruz, mostra o caminho. Financiado por edital competitivo do Funbio, com recursos do BNDES e da Petrobras, combinou ciência com gestão construída junto às comunidades extrativistas e indígenas locais. O plano de manejo foi elaborado em parceria com os catadores de caranguejo, que conhecem cada canal e cada maré.
Fundos climáticos, mercados voluntários de carbono e linhas de crédito de bancos multilaterais existem e a fila de projetos elegíveis é curta. O Espírito Santo tem condições de encurtá-la.
Há também recursos para o pagamento de serviços ambientais (PSAs), que reconhecem o manguezal pela multiplicidade de seus benefícios e asseguram a permanência das comunidades tradicionais. Dá para imaginar a panela de barro, patrimônio imaterial capixaba, sem os manguezais?
Esse é o debate promovido em 25 e 26 de junho pela Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil (CNSB), na UFES, em Vitória, reunindo casos concretos, ferramentas de estruturação financeira e diferentes partes interessadas, do terceiro setor aos bancos, do poder público à academia. O Brasil, especialmente o Espírito Santo, dispõe do que os países do Hemisfério Norte precisam para investir na reparação ambiental. Falta a engenharia para transformar isso em proposta.