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Daniela Klein e Mônica Tognella

Artigo de Opinião

Daniela é líder de Curadoria da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil (CNSB). Mônica é oceanógrafa, professora do Departamento de Ciências Agrárias e Biológicas da Ufes e pesquisadora de ecossistemas manguezais, coordenadora de pesquisas no Laboratório de Gestão dos Manguezais da Ufes São Mateus
Daniela Klein e Mônica Tognella

O manguezal que a maré já não consegue segurar

Como o Espírito Santo pode transformar seus ativos naturais em projetos que atraem financiamento climático, e por que esse debate não pode esperar
Daniela Klein e Mônica Tognella
Daniela é líder de Curadoria da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil (CNSB). Mônica é oceanógrafa, professora do Departamento de Ciências Agrárias e Biológicas da Ufes e pesquisadora de ecossistemas manguezais, coordenadora de pesquisas no Laboratório de Gestão dos Manguezais da Ufes São Mateus

Publicado em 06 de Junho de 2026 às 10:00

Publicado em 

06 jun 2026 às 10:00

O manguezal é um laboratório vivo, objeto de pesquisa há décadas e de descaso há séculos. Quando o nível do mar subir, e as projeções climáticas indicam que vai, aquele mangue não terá para onde recuar. Não há espaço. E os maiores manguezais do Brasil estão situados nas grandes regiões metropolitanas.


Esses ecossistemas prestam serviços imensuráveis à sociedade gratuitamente: proteção contra a erosão costeira, berçário de espécies pesqueiras, sequestro de carbono, amortecimento de tempestades e filtração de poluentes. São também fonte de alimento desde os povos originários, como atestam os sambaquis no litoral capixaba.


A invisibilidade desses benefícios tem um custo. Os manguezais brasileiros acumulam cerca de 1,9 bilhão de toneladas de CO2, estoque avaliado em quase R$ 49 bilhões no mercado de carbono, segundo estudo da Fundação Grupo Boticário de outubro de 2024. 

Matéria especial para semana do meio ambiente, manguezal na região de Maria Ortiz, em Vitória
Manguezal na região de Maria Ortiz, em Vitória Fernando Madeira

Só a área metropolitana de Vitória armazena cerca de 218.648 toneladas de carbono acima do solo. Além disso, organismos e plantas dos manguezais da Baía de Vitória capturam e filtram pesticidas, herbicidas, sedimentos e derivados de petróleo, segundo estudos do Laboratório de Gestão dos Manguezais da Ufes São Mateus e do Laboratório de Limnologia em Goiabeiras. Sem essa biorremediação, a baía e as praias próximas estariam significativamente mais contaminadas.


O dinheiro, no entanto, só flui quando há projeto. Mas uma palavra ainda soa estranha para quem milita na causa ambiental: bancabilidade. Os benefícios sociais dos recursos naturais têm valor zero nessa contabilidade, embora os custos de sua ausência sejam imensos e se repartam entre todos. 


O mecanismo de blended finance, que combina recursos públicos ou filantrópicos com capital privado para absorver o risco inicial, é uma das ferramentas mais promissoras para ampliar o acesso a financiamento sem sacrificar a integridade socioambiental.

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Salve o manguezal: como ciência e comunidade restauram bioma no ES

No Norte do Espírito Santo, um projeto de restauração de cerca de 600 hectares de manguezal nos rios Piraquê-Açu e Piraquê-Mirim, em Aracruz, mostra o caminho. Financiado por edital competitivo do Funbio, com recursos do BNDES e da Petrobras, combinou ciência com gestão construída junto às comunidades extrativistas e indígenas locais. O plano de manejo foi elaborado em parceria com os catadores de caranguejo, que conhecem cada canal e cada maré.


Fundos climáticos, mercados voluntários de carbono e linhas de crédito de bancos multilaterais existem e a fila de projetos elegíveis é curta. O Espírito Santo tem condições de encurtá-la. 


Há também recursos para o pagamento de serviços ambientais (PSAs), que reconhecem o manguezal pela multiplicidade de seus benefícios e asseguram a permanência das comunidades tradicionais. Dá para imaginar a panela de barro, patrimônio imaterial capixaba, sem os manguezais?


Esse é o debate promovido em 25 e 26 de junho pela Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil (CNSB), na UFES, em Vitória, reunindo casos concretos, ferramentas de estruturação financeira e diferentes partes interessadas, do terceiro setor aos bancos, do poder público à academia. O Brasil, especialmente o Espírito Santo, dispõe do que os países do Hemisfério Norte precisam para investir na reparação ambiental. Falta a engenharia para transformar isso em proposta.


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