Em 31 de dezembro de 2019, o governo chinês atraiu a atenção do mundo ao notificar a ocorrência de casos de pneumonia de origem desconhecida na cidade de Wuhan. Três meses depois, a nova doença se transformaria na pandemia de Covid-19 e mudaria nossas vidas. Desde então, mais de 12 milhões de pessoas já se infectaram com o vírus e mais de 550 mil foram a óbito.
Para alguns países, o pior já pode estar passando; para outros, a situação ainda deve piorar mais. Vivemos uma incerteza quase tão perturbadora quanto a ansiedade e o medo provocados pela doença. Mas não podemos dizer que fomos pegos de surpresa, pois sabíamos que algo semelhante estava a caminho.
Em 1994, a autora do livro “The Coming Plague” (A Próxima Praga), Laurie Garrett, alertou: “Enquanto a raça humana luta contra si mesma, guerreando por mais território e por recursos naturais cada vez mais escassos, os microorganismos causadores de doenças tiram proveito e serão vitoriosos se não aprendermos a conviver em uma aldeia global racional”.
Acreditávamos estar vivendo na segurança do Antropoceno, era em que a raça humana dominaria o meio ambiente e alcançaria o ápice de sua onipotência. Porém, no meio do caminho surgiu a Covid-19, para expor de forma definitiva e surpreendente a fragilidade da nossa sociedade, a ausência de uma cultura de cooperação e nossa incapacidade de coordenar ações contra um inimigo comum.
A Covid-19 nos mostrou que não somos tão onipotentes quanto pensávamos. Não estávamos preparados para enfrentar esse vírus imperceptível a olho nu, e permitimos que o medo do invisível afetasse nosso equilíbrio racional e emocional. Ouvimos as pessoas nos perguntar quando isso tudo vai acabar sabendo que, na maioria das vezes, não estão interessadas na erradicação da doença e sim na volta da vida normal, como conhecíamos. Em outras palavras, querem que o fim ocorra não porque a doença foi vencida, mas porque estamos todos cansados do isolamento social.
CRISE QUE DEFINE UMA GERAÇÃO
Segundo Allan Brandt, historiador de Harvard, em debate sobre a abertura da economia, boa parte das questões relacionadas ao fim da pandemia foram determinadas não pelos dados médicos e de saúde pública, mas por processos sociopolíticos.
Nesses mais de 180 dias, a Covid-19 deixou de ser um pequeno abalo na consciência do mundo, para se tornar a crise definidora de uma geração, afetando quase tudo o que acontece no planeta, inclusive nossa percepção do tempo. E o tempo, segundo Aristóteles, é a medida da mudança, é a observância do antes, do agora e do depois, do começo e do fim.
Em 2020, o coronavírus tornou-se o ponto de partida para a mudança. Nesse processo, algo aconteceu com o tempo. O vírus criou seu próprio relógio e deixou imperceptível a distância entre manhã e noite, um dia e uma semana, o presente e o passado recente.
Embora grande parte do impacto da pandemia tenha atingido de forma desigual a população mundial, as distorções do tempo parecem estranhamente universais. Os dias se misturam, os meses se aproximam e o tempo não é mais medido em horas e dias, mas em casos confirmados e óbitos.
CHEGADA AO ESPÍRITO SANTO
No Brasil, o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado em São Paulo, no dia 26 de fevereiro. Oito dias depois, a doença chegava ao Espírito Santo. Desde então, já testamos mais de 40.370 amostras para SARS-CoV2 em nosso laboratório central, o Lacen-ES. Esse esforço, se comparado às 597 amostras testadas para vírus respiratórios no mesmo período de 2019, equivaleria a termos vivido 67,6 anos, em 139 dias.
Para o jornalista e ganhador de dois prêmios Pulitzer, David Wessel, 2020 será um marco na história mundial. Segundo ele, “vivemos um ano bissexto único, pois tivemos 29 dias em fevereiro, 300 dias em março e 5 anos em abril". Ainda estamos no meio da tempestade, mas não podemos desistir, mesmo que o tempo continue nos pregando peças.
Enquanto a pandemia não acaba, é preciso seguir em frente. Afinal, amanhã será um novo dia e, por mais que o tempo dê voltas ou se alongue para nos surpreender, podemos sempre ter a certeza de que o sol haverá de brilhar mais uma vez.
O autor é PhD em Imunologia pela Vanderbilt University e coordenador-geral do Lacen-ES