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Leonardo Roza Tonetto

Artigo de Opinião

É advogado e professor universitário
Leonardo Roza Tonetto

Homens trabalhando: como romper com a banalização do perigo em obras

Essa realidade demonstra que a proteção do trabalhador não depende apenas da consciência individual
Leonardo Roza Tonetto
É advogado e professor universitário

Publicado em 13 de Agosto de 2026 às 10:00

Publicado em 

13 ago 2026 às 10:00

A morte de quatro trabalhadores soterrados durante uma obra em Cariacica, no Espírito Santo, não representa apenas uma tragédia para suas famílias. Representa um alerta para toda a sociedade sobre o valor que atribuímos à vida de quem constrói, diariamente, as cidades em que vivemos.


Infelizmente, acidentes dessa natureza costumam ser tratados como fatalidades. Mas a verdade é que, em grande parte dos casos, eles não decorrem do acaso. São consequência da negligência, da ausência de planejamento, do descumprimento de normas técnicas e da falsa ideia de que segurança é um custo que pode ser reduzido.


A legislação brasileira não exige medidas de proteção por mero formalismo. As normas regulamentadoras, a atuação de profissionais habilitados, a fiscalização das condições de trabalho e a adoção de equipamentos de proteção existem porque cada uma dessas medidas foi construída a partir de tragédias que não deveriam ter acontecido.

Barranco cai sobre pessoas em Cariacica
Barranco cai sobre pessoas em Cariacica Leitor AG

Quando uma empresa deixa de investir em segurança, não está apenas assumindo um risco financeiro. Está colocando vidas humanas em perigo.


É importante destacar que a investigação ainda esclarecerá todas as circunstâncias desse episódio. Contudo, as informações divulgadas até o momento indicam possíveis falhas que reforçam um princípio elementar: nenhuma obra, nenhum prazo e nenhum lucro justificam a exposição de trabalhadores a riscos evitáveis.


Também é preciso romper com uma cultura que normaliza situações perigosas. Muitos trabalhadores continuam exercendo suas atividades mesmo percebendo riscos evidentes, seja pelo medo de perder o emprego, seja pela necessidade de sustentar suas famílias.

 

Essa realidade demonstra que a proteção do trabalhador não depende apenas da consciência individual, mas principalmente do compromisso de empregadores, responsáveis técnicos e do próprio Estado em fiscalizar e exigir o cumprimento das normas.

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A Constituição Federal assegura a redução dos riscos inerentes ao trabalho como um direito fundamental. Não se trata de um benefício concedido pelo empregador, mas de uma garantia mínima de dignidade. O ambiente de trabalho deve preservar a vida antes de qualquer resultado econômico.


Cada acidente fatal deixa um vazio irreparável. Pais deixam filhos. Filhos deixam pais. Famílias inteiras passam a conviver com uma ausência que jamais será preenchida. Enquanto isso, obras são concluídas, empresas seguem funcionando e a rotina continua. Para quem ficou, porém, o tempo nunca mais será o mesmo.


Que essa tragédia não seja apenas mais uma manchete passageira. Que ela sirva para reforçar uma verdade simples, mas frequentemente esquecida: nenhum trabalhador deveria sair de casa para ganhar o sustento sem a certeza de que fará o caminho de volta.

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