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É jornalista e idealizadora do Projeto Todas Elas

Feminicídio em Vitória: ele matou a guardiã de todas nós e nos matou também

Morte da comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa Mattos, pelo ex é o símbolo do absurdo e escancara a dor de todas nós, mostrando o quanto o ódio dos homens destrói toda a sociedade

  • Elaine Silva É jornalista e idealizadora do Projeto Todas Elas
Publicado em 23/03/2026 às 14h45

Hoje eu acordei com lágrimas nos olhos. A notícia da morte da comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa Mattos, assassinada pelo ex-namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, me fez ficar por alguns minutos numa posição fetal, como se eu quisesse voltar para o útero da minha mãe, diante da sensação de pânico que me tomou. Fiquei sem voz, tomada de medo, com um nó na garganta.

A morte da Dayse é simbólica. Ela era a guardiã máxima da segurança de nós mulheres, na nossa cidade. E um homem teve a coragem de entrar em seu quarto, matá-la enquanto ela dormia, só porque ela disse não a ele. Se Dayse foi morta, dessa forma, tendo toda a informação, tendo uma arma, sendo a comandante da segurança da cidade, como nós ficamos? Quem vai nos proteger?

Sou jornalista há 27 anos, ajudei a criar e coordeno hoje o Projeto Todas Elas, sei do poder da minha voz perante a sociedade. Realizamos um evento lindo na semana passada, que reuniu quase 200 mulheres, e falamos sobre o verbo esperançar, que temos que ser fortes para mudar a realidade atual, acreditar que pode ser diferente. Hoje eu não sei mais como esperançar. Neste momento em que escrevo, tenho medo. Tenho medo pelas minhas filhas, pelas meninas, por todas as mulheres que como Dayse não acreditam que um homem tem a coragem dos matar.

Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória morta pelo namorado
Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória morta pelo ex-namorado. Crédito: Instagram guardadevitoria_dayse

Se mataram a Dayse, a nossa comandante, todas nós podemos morrer. Estou lutando contra esse medo, mas está difícil. Eu quero voltar a esperançar, quero acreditar que pode ser diferente. Mas hoje está muito difícil. Nós falamos todos os dias que é preciso reconhecer os sinais, que é possível quebrar logo o ciclo da violência, pedir medida protetiva para evitar o feminicídio.

Mas o caso da Dayse nos mostra que não é tão simples assim. Ela já vivia num relacionamento tóxico e abusivo, conseguiu dar o basta. Mas não bastou. Ele a matou covardemente. E agora, como continuar ensinando às mulheres a dar um basta se parece que a violência e o machismo não têm fim, que não adianta?

Meu apelo hoje como mulher, mãe e profissional é que haja um pacto social pelo fim da violência contra mulher. Todos os homens vieram de uma mulher, têm mães, irmãs, filhas. Não é possível que normalizem uma situação como essa. A morte da Dayse é simbólica. Temos que lutar para não acontecer com mais ninguém. Quando matam uma mulher como a Dayse, estão matando todas nós. E ninguém aguenta mais.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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