A Advocacia-Geral da União deu, em setembro, 72 horas para o YouTube tirar do ar, ou marcar como artificial, uma leva de vídeos em que personagens criados por inteligência artificial se apresentam como médicos e prometem cura.
São 97 perfis mapeados pelo Ministério da Saúde entre janeiro e julho. O alvo preferido é a população idosa. Boa parte usa a autoridade emprestada do jaleco para vender e-book, suplemento, consulta paga.
Trabalho com responsabilidade médica há quase vinte anos e passo boa parte dos meus dias discutindo por quanto um médico responde quando erra. Ele tem registro, endereço, conselho que pode cassá-lo e paciente que pode processá-lo. O personagem digital não tem nada disso. Quando o vídeo cai, no dia seguinte sobe outro, com outro nome e outro rosto. A punição alcança o vídeo, nunca quem o fabricou.
Enquanto governo e plataformas discutem quem responde por isso, sobra uma checagem gratuita que quase ninguém faz. Todo médico no Brasil tem um número de inscrição no conselho do seu estado, e essa informação é pública. Basta digitar o nome no site do Conselho Federal de Medicina para ver na hora se a pessoa existe, onde se formou e em que se especializou. Nome que não aparece ali encerra a conversa.
Antes mesmo da checagem, há sinais que dispensam conhecimento técnico. Médico não promete cura. Também não costuma afirmar que a indústria esconde a fórmula, nem mandar um desconhecido suspender remédio prescrito por outro profissional, e muito menos vender no fim do vídeo o produto que acabou de recomendar. Quando isso tudo aparece junto, o problema está no vídeo, não em você.
O prejuízo maior nunca é o dinheiro do e-book. É a senhora de 70 anos que suspendeu por conta própria o remédio da tireoide, é o exame que a família adiou porque alguém garantiu, com uma segurança que nenhum profissional honesto teria, que havia um caminho natural. Meses depois isso vira um problema clínico real, e aí não há remoção de vídeo que resolva.
Se você mora com alguém que passa a tarde no YouTube, esse assunto é seu. Pergunte o que ela anda assistindo, sem deboche, porque quem se sente ridicularizado esconde. O próprio vídeo tem botão de denúncia, e o Ministério da Saúde segue recebendo casos para o levantamento.
Mais útil do que qualquer denúncia, porém, é levar o print para a consulta. Médico nenhum se ofende ao ser questionado sobre um tratamento que o paciente viu na internet; o que atrapalha de verdade é descobrir a história seis meses depois, quando o dano já está feito.
Da próxima vez que chegar ao grupo da família o vídeo de um médico que ninguém nunca viu na vida, não discuta o conteúdo. Pegue o nome e procure no site do conselho. Leva menos tempo do que assistir ao vídeo inteiro.