Com o presente desestruturado e o horizonte embaçado, a esta altura da pandemia, as longas horas dos dias e das noites já podem estar atravessadas por pavores para bem além da medida do antigo normal. Essa exacerbação temerosa também já ultrapassa os medos evidentes, como os de contaminação, desemprego, morte, chegando-se ao patamar dos pavores que não se consegue nomear – apenas sentir.
Incrementa-se uma existência pautada pela angústia, segundo Freud, “um estado como de expectativa do perigo e preparação para ele, ainda que seja desconhecido”. Quando há “um determinado objeto, ante o qual nos amedrontamos”, saímos da angústia e chegamos ao medo. Mas o que nos faz tomar o caminho reverso, partindo do medo com foco para a angústia difusa? Talvez seja o fato de que este tempo mortífero nos coloque diante da brutal consciência de nosso desamparo estrutural.
Acerca do ser humano, Freud afirma que sua “existência intrauterina parece relativamente abreviada em comparação com a da maioria dos animais; ele está menos acabado do que estes quando é jogado no mundo.
Por isso, a influência do mundo exterior é reforçada”. Se esse exterior é pura incerteza, nem precisa dizer dos efeitos dramáticos dessa contingência em sujeitos entregues prematuramente ao abandono existencial.
Mas por que não conseguimos dar nomes aos agentes dessa angústia nebulosa, que parecem tão arraigados em nossas almas e se mostram de difícil apreensão racional? Esses fatores fantasmagóricos compõem o que Freud chama de “infamiliar”. São vivências traumáticas que foram recalcadas, mas que nos assaltam sob certas circunstâncias, como o desmedido desamparo atual.
Acerca das sensações infamiliares, Freud conclui: “Sobre a solidão, o silêncio e a escuridão, nada podemos dizer a não ser que esses são realmente os fatores ligados à angústia infantil, que não desaparece por completo na maioria das pessoas”. Como bem estabeleceu o “pai da psicanálise”, “todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo ele pode ser salvo”. Mas diante de uma angústia pandêmica, talvez valha a pena lembrar que quem está a enfrentar as adversidades do existir não é mais uma criança – aquela criança...
*O autor é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória