Após cinco meses da pior pandemia em cem anos, com mais de 5 milhões de casos confirmados em todo o mundo (estima-se um número, no mínimo, 10x maior) e 333 mil mortes, assistimos na última semana a uma sequência de boas e animadoras notícias. Nunca antes se desenvolveu esforço tão monumental na pesquisa de novas vacinas contra um único agente infeccioso. Gigantes da indústria farmacêutica e diversas empresas de tecnologia são responsáveis por mais de uma centena de projetos, com estratégias diversificadas, em uma competição saudável, típica do empreendedorismo.
Pelo menos oito já estão sendo testadas em seres humanos. Já tínhamos boas notícias dos esforços do grupo da Universidade de Oxford/Astra Zeneca e do Instituto Médico de Shenzen em transição de fase 1/2. Agora soubemos dos avanços da BioNtech/Pfizer e da Moderna/NIAID, responsáveis também pelos suspiros da bolsa nos últimos dias. Curioso que surge já uma discussão, inclusive na OMS, de quebra de patentes e distribuição de qualquer produto desenvolvido a todos os países necessitados.
Por outro lado, há que se premiar o esforço e o risco das companhias que eventualmente tiverem sucesso. Aí, como em tudo na vida, é preciso bom senso. Outras doenças surgirão na nossa história, e as grandes descobertas não vem da burocracia, mas da inventividade, da ciência e do risco de empreender.
Ainda há, entretanto, um longo caminho a percorrer para comprovar a eficácia, desenvolver, fabricar e distribuir as vacinas em padrões globais. Nem a expectativa mais otimista acredita em se ter o mundo vacinado tão cedo. Quem está habituado com a história das vacinas sabe que estas são boas notícias, com cautela. Muitas vezes ótimos candidatos, excelentes desenhos e projetos, desabam na fase final, e dão errado.
ANTICORPOS E IMUNIDADE
Outras boas descobertas, que têm paralelo com o uso de plasma (com anticorpos) de convalescentes contra pessoas doentes com Covid-19, são o desenvolvimento de anticorpos monoclonais com forte ação contra o novo coronavírus. Esses anticorpos poderiam ter ação curativa e eventualmente preventiva, funcionando como medicamento profilático, evitando entrada do vírus no organismo. Inicialmente, um grupo israelense desenvolveu um potente anticorpo, feito também alcançado por outros grupos, inclusive com envolvimento de um cientista brasileiro, na Fundação Rockfeller em Nova York.
Sobre imunidade, ainda não temos certeza se as pessoas curadas estarão livres de uma nova infecção, mas há esperanças. Sabemos que a maioria das pessoas é muito contagiosa alguns dias antes de adoecer e até 7 dias depois do início dos sintomas. Posteriormente, a capacidade de passar adiante a doença vai caindo, tornando-se quase impossível após 14 dias, nos casos que não necessitam de internação.
Vários relatos de pessoas que voltaram a testar positivo, 30 dias ou mais depois do diagnóstico inicial, levantaram a sombra e medo de nova infecção. Em estudo divulgado no último dia 19 de maio, a Coreia do Sul investigou 285 pessoas nessas condições e mostrou que nenhuma transmitiu a doença, reforçando a tese de cura e de que pessoas que voltam a testar positivo devem ter fragmentos virais excretados tardiamente, sem importância na transmissão.
Todas essas boas notícias reforçam a ideia que essa pandemia passará. Sairemos mais fortes do outro lado. Mas o túnel que atravessamos está mais longo do que prevíamos. Nossos profissionais de saúde estão aprendendo o manejo desta nova doença, cada dia mais pessoas de diferentes faixas etárias estão curadas, mas os hospitais estão cada vez mais cheios.
DISTANCIAMENTO SOCIAL
Estamos aprendendo a monitorar os doentes, identificar fatores de risco e marcadores de gravidade, identificar os que precisam de hospital. Como não existe até agora nenhum medicamento de eficácia comprovada que interfira na evolução (pelo menos até hoje, 22 de maio), a única e melhor forma de lidar com a Covid-19 é a distância entre as pessoas, porque ela é transmitida pela tosse, espirro ou fala (que gera gotículas) de pessoas sem sintomas.
Temos que reconhecer que não estamos fazendo o distanciamento social adequado e necessário, seja porque cansamos, seja porque muitos ainda têm dúvida se é necessário ou seja porque gastamos demasiada energia em debates ideológicos desnecessários, que desviam o foco do essencial. O estudo do Imperial College de Londres e o inquérito sorológico promovido pela Sesa apontam o mesmo número: pouco mais de 2% dos capixabas foram expostos ao vírus ao redor de 10 de maio. Isso significa que restam 4 milhões de capixabas a se infectarem. A curva é hoje ascendente, e não há pico à vista (o que é óbvio se restam mais de 97% das pessoas a se infectarem).
COLAPSO DE HOSPITAIS
Estamos contratando o colapso das redes privada e pública de saúde nas duas próximas semanas. Hospitais irão fechar as portas pela absoluta incapacidade de admitir novos pacientes. Essa agonia irá persistir por semanas, quiçá meses. A Suécia, que tentou um modelo alternativo de manter negócios, ao contrário de seus vizinhos, está no momento com a maior taxa de mortalidade e, também, a pior recessão da Escandinávia.
Entendo o desespero de empresários sem vender e sem condições de manter suas empresas. Mas entendo que há uma recessão global e brutal, que é o preço da pandemia. Defendo que única forma de desenvolver qualquer atividade econômica é com garantias reais de distanciamento e disciplina férrea (oposto do que ocorre hoje) e principalmente CONFIANÇA de que o consumidor não irá se contaminar e colocar sua vida em risco.
Estamos em rota firme para o pior dos dois cenários: mortalidade e colapso dos sistemas de saúde junto com recessão prolongada, porque não conseguimos inverter a curva de contágio. E inverter a curva de contágio significa que dez capixabas estarão progressivamente contaminando menos que dez no próximo ciclo e assim sucessivamente. Hoje, cada dez capixabas contaminam cerca de 16 a 17 no próximo ciclo.
Para mudar este cenário é necessário um pacto social de comportamento e unidade de ação sem querelas políticas desnecessárias. São indispensáveis distanciamento e isolamento EFETIVOS! Há o enorme desafio de fazer isso funcionar com pessoas que precisam desesperadamente de trabalhar. São urgentes unidade na ação, um discurso só e claro, melhora de nossa comunicação e mecanismos de proteção para os mais vulneráveis. Quando e se conseguirmos isso ainda teremos que ter um protocolo cuidadoso de convivência para evitar novas ondas. O túnel é mais longo do que imaginávamos, mas há luz do outro lado.
O autor é infectologista e professor da Emescam