Em tempos de distanciamento social, a migração digital se expande a fórceps. Com o isolamento geográfico, um contingente crescente avança as fronteiras do “oitavo continente de bytes”. Mas a colonização dos ciberterritórios, seguindo a secular marcha das desigualdades socioeconômicas, parece inventar uma nova dimensão existencial tão ou mais excludente que a vida presencial.
Lá, como cá, há os que têm acesso e fruição de primeira classe, assim como existem aqueles enredados em carências e impedimentos das mais diversas ordens, apenas subsistindo. Antes, se há os que já estão instalados nos quadrantes da virtualidade, existem milhões do lado de fora dos muros dos ciberterritórios, cuja “materialidade” é formada por teias de redes informacionais dialógicas, ativadas e dinamizadas por múltiplos interesses.
Segundo o Internet World Stats, 30% da população brasileira não está em rede. Para o IBGE, a taxa de domicílios com acesso à internet fica em 79,1%. Nas classes D e E, só 48% conseguem se conectar, informa o Cetic.br. Áreas rurais vivem exclusão ainda muito mais severa. Para os barrados da digitalidade, os motivos são falta de interesse, acesso caro, desconhecimento sobre como usar a internet, indisponibilidade de rede e alto custo de equipamento para conexão, entre outros.
Algumas dessas razões da exclusão também afetam a performance dos “incluídos, mas nem tanto”. O Cetic.br revela que 85% dos usuários das classes D e E acessam a rede exclusivamente pelo celular, com pacotes caros e limitados. Na classe C, essa é a realidade de 61%.
No quadro geral, os problemas referem-se a nível de instrução da população, analfabetismo digital, infraestrutura de telecomunicações, assistência técnica, equipamentos precários ou tecnologicamente ultrapassados, custos envolvidos e qualidade de conexão.
Viver é experimentar os sentidos, já alertaram os gregos. Com os ciberterritórios, ganhamos um outro “lugar” para exercitá-los, ainda que não todos. Ou seja, vida virtual é vida real, apesar de não presencial, alcançando áreas como saúde, educação, trabalho, cultura, relacionamentos afetivos, atividades cívicas e políticas, entre outras.
Seja em função do paradigma tecnoprodutivo atual, seja pelas imposições restritivas da pandemia, a migração digital, em febril aceleração, é caminho sem volta. E numa realidade de arraigadas e abissais desigualdades, tratar dos problemas desse movimento é mesmo enfrentar os reais desafios da cidadania e da mobilidade socioeconômica no século XXI.
*O autor é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor e pesquisador na Ufes