Casos recentes de violência envolvendo armas de fogo reacendem um debate que, no Brasil, costuma ser tratado de forma simplificada: ser contra ou a favor das armas. Soma-se a esse debate um dado empírico relevante: o aumento dos assassinatos de mulheres, já reconhecido no Código Penal como crime autônomo, o feminicídio.
Com base no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, observa-se que a maioria das mulheres vítimas de violência letal é morta dentro de casa, por parceiros ou ex-parceiros, e que as armas de fogo seguem como um dos principais meios utilizados nessas mortes.
Um episódio ocorrido recentemente no Espírito Santo, em que a comandante da Guarda Municipal foi morta pelo companheiro, um policial rodoviário federal, seguido de suicídio, expõe de forma trágica a complexidade desses temas. O acesso a armas de fogo, a violência contra a mulher e o cuidado com a saúde mental se entrelaçam e exigem análise mais atenta.
Há um ponto que precisa ser reconhecido sem hesitação: armas de fogo não são objetos neutros. São instrumentos feitos para matar. Por isso, discutir o acesso a armas exige ir além da legalidade e considerar quem são os sujeitos que as portam e em quais condições psicológicas se encontram.
Esses sujeitos também carregam valores que influenciam suas atitudes e formas de se relacionar, inclusive aqueles que sustentam a violência doméstica e, em casos extremos, a morte de mulheres pelo simples fato de serem mulheres.
A legislação brasileira estabelece critérios para o acesso às armas e exige avaliação psicológica. Essa exigência é importante, mas precisa ser compreendida em sua exata dimensão. A avaliação é pontual no tempo e no espaço.
Quando se atesta que uma pessoa está apta para o manuseio de arma de fogo, isso não representa garantia permanente de que manterá essas condições ao longo da vida. A existência humana é dinâmica, e as formas de adoecimento psíquico são múltiplas, muitas vezes silenciosas.
Outro ponto importante: diferentemente de muitas doenças físicas, o sofrimento psíquico não é visível. Ele não sangra, não se anuncia de forma evidente. E também pode se manifestar na dificuldade de lidar com valores e mudanças sociais, especialmente quando envolve o lugar e o protagonismo das mulheres.
Em uma sociedade ainda marcada por valores misóginos, muitos homens são formados dentro de referências de masculinidade que dificultam essa compreensão. Para muitos, a ideia de que “a mulher pode fazer o que quiser” é algo profundamente insuportável, pois confronta uma construção de masculinidade enraizada em sua subjetividade.
Quando esse processo se associa a visões distorcidas sobre as relações entre homens e mulheres, abre-se espaço para a banalização da violência. Quando associamos o caráter dinâmico da saúde mental a um acesso contínuo a um meio letal, temos um ponto de atenção que precisa ser enfrentado com responsabilidade.
Em contextos como o das forças de segurança, ainda há estigma em relação ao cuidado psicológico. Há, inclusive, um jargão nesses espaços — “primeira enfermaria” — que revela como o cuidado em saúde mental ainda é visto como algo desabonador.
O cuidado com a saúde mental de pessoas que portam arma de fogo, especialmente no porte institucional, deve ser prioridade das instituições e das famílias. Não parece razoável que indivíduos com histórico conhecido de violência doméstica ou atravessando momentos críticos de sofrimento psíquico mantenham acesso irrestrito a um instrumento cuja finalidade é letal.
A vida humana não pode ser tratada como elemento secundário. Casos como esse mostram que a combinação entre sofrimento silencioso, violência contra a mulher e acesso a meios letais exige atenção permanente, responsabilidade e compromisso real com a preservação da vida.