O mês de setembro é dedicado à prevenção do suicídio, um fenômeno complexo, multicausal que demanda conscientização diária e deve ser pauta o ano inteiro. Somos culturalmente negligentes com a saúde mental e não fomos educados para falar de sentimentos de forma assertiva. Por isso, é oportuno lembrar que doenças mentais não tratadas de forma adequada podem aumentar o risco de suicídio.
Apesar da multicausalidade do adoecimento mental, é importante destacar que algumas profissões, no contexto em que são exercidas, tornam o indivíduo mais exposto ao sofrimento psíquico, outras são marcadas por uma “aura de heroísmo” e “blindagem” que precisa ser desmistificada. Reconhecer as vulnerabilidades, buscar apoio e se cuidar não diminui ninguém e nem invalida “atos heroicos”.
Atividades de operadores da segurança pública (policiais, bombeiros etc.) e profissionais da saúde em geral possuem características próprias que podem aumentar nesses trabalhadores a incidência de esgotamento emocional, ansiedade, depressão, outros transtornos mentais e até suicídio.
Numa pandemia, com a alteração da rotina, o distanciamento social, a vigilância com os hábitos que diminuem a contaminação e a preocupação com as repercussões socioeconômicas, é normal sentirmos irritabilidade, angústia, medo e frustração.
Entretanto, para alguns indivíduos, é mais desafiador manter a saúde mental numa situação tão adversa, já que não é viável se afastar do trabalho, pois pertencem a categorias essenciais, o que pode potencializar o risco psicossocial, situação que, geralmente, é desconsiderada pela sociedade.
Por exemplo, policiais possuem uma “profissão perigo” marcada pela tensão peculiar da profissão; profissionais da saúde estão sobrecarregados por conta dessa emergência em saúde pública; e tantos outros trabalhadores submetidos a exigências específicas, com falta de protocolos próprios que diminuam o contágio e, muitas vezes, na linha de frente sem os equipamentos de proteção individual adequados.
A Covid-19 só ampliou o alerta sobre algumas profissões que já se viam em situação preocupante quanto ao adoecimento mental, como no caso dos policiais, grupo com grande ocorrência de suicídios. Precisamos implementar estratégias que aumentem a proteção/atenção psicossocial no trabalho e diminuir os impactos emocionais do risco a que esses profissionais são impostos.
Promover o autocuidado não fragiliza a imagem de nenhum indivíduo, categoria ou instituição. Precisamos acolher mais e julgar menos. O preconceito e a falta de empatia atrapalham a prevenção, que é o melhor caminho.
*A autora é assistente social da Polícia Federal e mestranda em Segurança Pública