Um episódio recente, ocorrido aqui no Estado, me trouxe à memória um mito grego: o do rei Sísifo, condenado pelos deuses a subir uma montanha empurrando pesada pedra.
Ao chegar ao topo, a pedra escorregava de suas mãos e rolava de novo até o chão. Como castigo, a missão de Sísifo era carregá-la de volta montanha acima, repetidas vezes, até o infinito.
Quem acompanhou as notícias sobre o mercado imobiliário nos últimos dias ficou sabendo que, após longo tempo, a Prefeitura de Vila Velha e o Ministério Público Estadual finalmente fecharam acordo em relação à chamada zona de amortecimento, uma área gigantesca no entorno do Parque Natural de Jacarenema, que vai da região do Jockey à Ponta da Fruta.
Passa a ser possível, assim, emitir licenças para empreendimentos de baixo e médio impactos naquele local desde que, óbvio, sejam respeitadas condições legais e ambientais em vigor.
Quem trabalha no setor imobiliário capixaba ou mesmo quem empreende ou emprega, em qualquer outro segmento, certamente vinha se sentindo como Sísifo ao longo de toda essa história.
Enfrentar entraves ao desenvolvimento como o desse imbróglio se tornou uma exaustiva rotina para os empresários. Um problema de longo prazo que afeta, e muito, o consumidor e a população em geral. A cada pequeno passo que se dá adiante contra os impedimentos aos negócios que surgem, o nosso já desequilibrado sistema burocrático contra-ataca com enormes saltos de retrocesso.
Nesse caso, especificamente, ficaram paralisados pedidos de licença em quase 28% da área do município de Vila Velha, inviabilizando projetos que já poderiam ter saído do papel e gerado moradias, novos negócios, novos empregos e novas receitas. Se implantados há mais tempo, os empreendimentos imobiliários também teriam sido comercializados a preços mais baixos. Hoje, invariavelmente, sofrerão ajustes expressivos nas tabelas.
No final das contas, como sempre, são o consumidor e a sociedade que pagarão por uma árdua trajetória de impedimentos que nunca deveriam ter existido.
Vivemos num país que demanda, urgentemente, maior foco no futuro.
O Brasil precisa encerrar de vez esse círculo vicioso de entraves e burocracias. E mais: precisa sem demora de reações mais urgentes e eficazes por parte do poder público, das instituições e da sociedade em geral para, enfim, rolarmos essa pedra para além do cume da montanha e evitarmos sobrecarregar ainda mais a vida e o bolso do cidadão.