Em 1994, quando o Vital nasceu a partir do Bloco Lavagem do Triângulo, em Vitória, talvez fosse difícil imaginar o tamanho que aquela festa alcançaria. O bloco, que já fazia parte da movimentação carnavalesca da cidade, foi o ponto de partida para a criação de uma festa que rapidamente ganhou proporções maiores. Na primeira edição, realizada na Avenida Dante Michelini, em Camburi, o evento reuniu 60 mil pessoas.
Aquele era um Brasil diferente, uma Vitória diferente e, naturalmente, um público diferente. Os carnavais fora de época ganhavam força e se espalhavam pelo país, criando um novo espaço para grandes festas e experiências musicais. Foi nesse contexto que o Vital nasceu e rapidamente passou a fazer parte da vida cultural do Espírito Santo.
Quem viveu aquele período sabe que o Vital era aguardado de uma maneira muito particular. Havia uma expectativa que começava muito antes da festa: encontrar os amigos, escolher o abadá, combinar como chegar e onde se encontrar. O celular ainda não ocupava o lugar central que ocupa hoje, e as redes sociais sequer existiam. A memória era construída de outra maneira.
Olhar para essas diferenças ajuda a entender o que significa chegar aos 30 anos. O Vital não foi uma festa congelada no tempo. Ele mudou porque as pessoas mudaram. A cidade, a música, a tecnologia e a maneira de consumir entretenimento também mudaram.
Foram 16 anos sem Vital. E há algo simbólico nesse intervalo. Mesmo sem acontecer, o evento continuou presente nas histórias de quem viveu, nas fotografias guardadas, nas músicas e nas conversas sobre as grandes festas de antigamente.
Em 2022, o Vital voltou, em um novo momento e em um novo espaço: o Sambão, tradicional endereço do Carnaval de Vitória. Mas não era possível simplesmente apertar um botão e voltar para 1994. O mundo que recebeu o Vital de volta era outro. O público também.
Hoje, descobrimos artistas pelo streaming, pelas redes sociais e por diferentes plataformas. A relação entre artista e público se tornou mais imediata, e a experiência de ir a uma festa também mudou. O celular passou a fazer parte dela: o público registra, compartilha e ajuda a levar o evento para além do espaço físico. Até a mobilidade se transformou, com novas opções de transporte e outras preocupações relacionadas ao planejamento e à segurança.
O Vital voltou porque ainda existia uma memória em torno dele. E uma memória não se mantém apenas porque algo foi importante um dia. Ela permanece quando as pessoas continuam contando suas histórias e quando novas gerações conseguem encontrar algum significado naquela experiência.
É aí que está uma das coisas que mais me chamam a atenção nesses 30 anos: o Vital não pertence a uma única geração. Existe o Vital de quem esteve nas primeiras edições, de quem cresceu ouvindo histórias dos pais, de quem viveu os grandes carnavais fora de época, de quem sentiu a ausência durante os 16 anos e de quem conheceu a festa depois do retorno. É essa capacidade de atravessar gerações que transforma um evento em memória afetiva.
Não acredito que preservar a essência de uma festa signifique repetir tudo o que foi feito no passado. Pelo contrário. Às vezes, a melhor maneira de preservar uma história é permitir que ela continue mudando. Se o público mudou, o evento precisa mudar com ele. Se surgiram novas formas de consumir música e novas expectativas, elas também precisam fazer parte dessa transformação.
O Vital de 1994 não existe mais — e não precisa existir. Ele está nas lembranças de quem esteve lá. O Vital de hoje é outra experiência, construída para outro tempo e por outra geração. Mas carrega consigo algo que não depende de tecnologia, formato, atração ou endereço: a vontade de estar junto.