Cachoeiro de Itapemirim só veio a ter uma Faculdade de Direito em 1965. Antes dessa data, os jovens de minha terra que desejassem seguir o Curso Jurídico deveriam estudar na antiga Faculdade de Direito do Espírito Santo, que veio depois a integrar a Ufes. O grupo de acadêmicos da Princesa do Sul autodenominou-se Coluna Cachoeirense.
Havia uma sadia competição entre a turma de Cachoeiro e a turma de Vitória, uma turma querendo suplantar a outra.
Saudosos tempos em que a juventude competia pelo estudo, pelo saber, devorando livros doutrinários, lendo Ruy Barbosa, Clóvis Bevilácqua, Nelson Hungria, Roberto Lyra, Pontes de Miranda, Teixeira de Freitas, Tobias Barreto...
Bem-humorado, José Eduardo sabia valorizar as coisas simples do cotidiano. Tinha coração generoso, aberto para o outro, principalmente para os desvalidos
Rememorando o passado, para escrever este artigo, senti saudade. Não uma saudade que machuca, mas sim uma saudade que alegra por constatar que integrei uma geração que escolheu a melhor parte, aquela parte escolhida por Maria, em contraposição à escolha de Marta, conforme se lê na Bíblia Sagrada.
Faleceu há dias, aos 86 anos de idade, um dos queridos integrantes da Coluna Cachoeirense – José Eduardo Grandi Ribeiro.
José Eduardo seguiu a magistratura e veio a ser desembargador. Na presidência do Tribunal de Justiça, seu mais importante trabalho foi a criação dos Juizados Especiais e Juizados de Pequenas Causas, que muito contribuíram para a desburocratização da Justiça. Preocupado com o bem-estar dos funcionários, criou o serviço social, médico e psicológico que fez funcionar com muita eficiência.
Bem-humorado, José Eduardo sabia valorizar as coisas simples do cotidiano. Tinha coração generoso, aberto para o outro, principalmente para os desvalidos.
José Eduardo deixou viúva Maria Angélica Rocha Ribeiro e três filhos – Cláudia, Kátia e José Eduardo.
Na Faculdade de Direito do Espírito Santo, aprendi que três concepções tentam explicar o fundamento do Direito. Alguns autores viam o Direito como ideia inata; outros buscavam demonstrar que o Direito era produto da evolução histórica; e finalmente, na perspectiva marxista, o Direito devia ser compreendido como criação da classe economicamente dominante.
José Santos Neves subscrevia a tese marxista. Jair Etienne Dessaune dava razão à corrente historicista. Ademar Martins apontava o Direito como ideia inata.
A pugna intelectual envolvia os estudantes da Coluna Cachoeirense: Demistóclides Baptista, nosso Batistinha, tomava posição em favor da corrente marxista, acompanhado por Galdino Theodoro da Silva; eu me inclinava pelo Direito como ideia inata, ponto de vista que era também o de Walter Portes e o de Sérgio Gonçalves Lofego; José Eduardo Grandi Ribeiro e seu irmão Ewerly perfilavam o historicismo.
Belos tempos em que os jovens transformavam em disputa acirrada as grandes questões do pensamento.