Há algum tempo – bastante – venho me questionando o porquê de ter se tornado quase impossível manter diálogos racionais, debater ideias, teorias e projetos mesmo com pessoas “ditas” ponderadas. O que aconteceu por aqui? Qualquer tema que se introduza em uma conversa é imediatamente alocado na prateleira de “alguém”.
Aí se esvai a amplitude, a criatividade e a possibilidade de produzir algo fecundo. É fato que perdemos a indispensável capacidade de abstração e as nossas concretudes se tornaram frívolas. O grande Nelson Rodrigues disse que “a televisão matou a janela”. Eu ouso parafrasear o dramaturgo e dizer que “a fulanização matou as ideias”.
As revistas que mais vendem são as que falam de “pessoas”, os programas de TV mais assistidos falam da vida das “pessoas”, parte do jornalismo saiu dos fatos e adentrou às “pessoas”. Ao tempo em que escrevo este texto, por curiosidade, fui pesquisar os trending topics no Brasil e em diversos outros países. Confesso que fiquei em tanto envergonhado.
Enquanto em países desenvolvidos encontrei muitos temas relacionados à ciência, religião, esporte e política, por aqui eram muitos nomes próprios e um time de futebol - pelo menos isto. Este time está merecendo!
O hábito de fulanizar empobreceu a nossa discussão, acirrou ânimos e produziu torcedores violentos no lugar de eleitores e/ou debatedores. Basta aventar uma nova ideia para ser logo atalhado com argumentos ad hominem: “mas João é canhoto ou é destro...”; Nova tentativa e, nova interrupção, “mas a blusa de Maria é vermelha ou azul...”; A última tentativa e... “o Filho de Joaquim disse ou fez isto ou aquilo e ainda comprou uma moto”. Difícil!
Triste o país em que a Bolsa de Valores e o dólar sobem ou descem porque algum “fulano” entrou ou saiu da cadeia. Indignado com este estado de coisas, proponho um tratamento experimental que pode ser revolucionário na cura deste vício que está destruindo as muitas virtudes que temos: Vamos passar 30 dias (trinta é muito, vamos começar com 15) sem elaborar frases que comecem com nomes próprios, sem utilizar qualquer argumento que tenha nome de pessoas no meio, sem tentar confirmar qualquer teoria citando como exemplo “alguém”.
Não vamos repercutir, dar like ou compartilhar qualquer notícia, imagem e/ou vídeos onde o foco seja uma pessoa. Só 15 dias! Sei que haverá síndrome de abstinência. Por isto, proponho até um Fulanômetro que vai marcar: “estamos há X dias sem falar de pessoas. Só de ideias”!
Visitei grandes universidades pelo mundo e presenciei discussões sobre as “ideias” de Einstein, Copérnico, Adam Smith, Marx e outros. Não me lembro de ter presenciado debates sobre a alcova de qualquer um deles. Isto serve, e bem, às biografias, nunca à ciência. Há uma ilustrativa máxima atribuída a Platão, com variações dadas pelo nosso Leandro Karnal, que diz: “Pessoas elevadas falam sobre ideias, pessoas comuns falam sobre coisas e pessoas medíocres falam sobre pessoas!” Elevemo-nos um pouco!