O caso do Condomínio Ourimar, na Serra, é emblemático de como as leis se dissolvem sob o uso da força e da violência. É um drama que expõe feridas sociais que parecem nunca cicatrizar. É parte de um sistema de dominação da população mais vulnerável, com o tráfico tornando uma comunidade refém do crime, com a marca da ausência do Estado.
Espantoso é perceber que o estabelecimento desse poder paralelo não demanda muito tempo: no caso do Ourimar, sua instalação foi quase meteórica. Como relatado na reportagem exclusiva de Glacieri Carrareto para o Gazeta Online, o condomínio, que começou a ser construído em 2013 dentro do programa Minha Casa Minha Vida, foi entregue em 2016. Já naquele ano, traficantes começaram a se infiltrar para, em pouco tempo, passarem a impor as próprias leis. Estabeleceram-se, então, o terror e o medo no conjunto habitacional, com mortes, expulsões e conivência forçada com o crime.
A escolha do Ourimar não deve ter sido aleatória, basta se atentar para a sua localização estratégica: no meio da mata, com rotas de fuga para a rodovia ES 010 e para Vila Nova de Colares, tudo em meio a uma das localidades mais violentas do Estado, foco de uma contínua guerra urbana, muitas vezes silenciosa para quem vive nas zonas mais nobres.
O Estado deve voltar a se impor. Operações policiais foram realizadas no ano passado, quando sete mortes no local foram relacionadas à disputa de poder do tráfico, na tentativa de resgatar o condomínio de volta aos seus moradores, mas é preciso ir além. É inaceitável que o poder público feche seus olhos para quase dois mil moradores em uma terra sem lei. Pelo menos 48 famílias já foram expulsas de seus lares pelos bandidos.
Viver sob as leis do crime corrói a cidadania desses moradores, distorce a compreensão da realidade de crianças que, desde cedo, estão expostas a uma moralidade corrompida. Um combustível inesgotável para o ciclo da violência.