Uma ferramenta de inteligência artificial criada para ajudar na educação básica está em fase de implantação para ser utilizada por estudantes da rede pública no Espírito Santo. O EduChat foi testado inicialmente em um projeto educacional comunitário no Rio de Janeiro. Com os bons resultados, começa a ser aplicado no Estado em parceria com o projeto Corte de Lovelace, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).
Criada pela carioca Catarina Cavalcante, de 17 anos, a ferramenta foi destaque na palestra IA na Educação: Reduzindo Desigualdades e Transformando a Aprendizagem, durante o Simpósio Brasileiro de Sistemas de Informação (SBSI), realizado nesta semana em Vitória. No Estado, o objetivo da tecnologia é apoiar estudantes da rede pública, em especial meninas em situação de vulnerabilidade social.
O EduChat é uma ferramenta de tutoria artificial personalizada, uma espécie de “tutor de bolso”, capaz de apoiar os alunos nas disciplinas regulares da educação básica.
Diferente de outras tecnologias, a plataforma não fornece respostas prontas às dúvidas dos estudantes. A ferramente busca provocar o raciocínio lógico por meio de perguntas, ajuda na criação de planos e rotinas de estudo, além da revisão de conteúdo, identificando as maiores dificuldades do usuário. A proposta é que o auxílio individual seja um complemento às aulas.
De acordo com a professora de Tecnologias Educacionais e coordenadora do projeto, Márcia Gonçalves, o encontro de Catarina Cavalcante com algumas estudantes da Corte de Lovelace criou um espaço de identificação e a possibilidade de reduzir desigualdades educacionais.
"A ideia de tutoria é importante para repor um tempo de atendimento que, às vezes, o professor não consegue dar individualmente numa sala de 40 alunos. Não é uma ferramenta para substituir o professor ou a aula, muito pelo contrário, ela nos ajuda”, diz.
“Se todo aluno de ensino médio ou fundamental tiver acesso a uma ferramenta dessa, a gente vai ter muito menos diferenças entre escola particular e pública”, complementa Márcia.
Catarina conta que a paixão pela tecnologia surgiu em 2023, com apoio do pai, que também estava estudando sobre inteligência artificial. A escolha pelo foco em educação e tutoria individual veio da experiência dela como estudante, o que facilita a conexão.
Estamos numa época de muita potência, em que as ferramentas estão nas nossas mãos para ir atrás da ambição, da educação. Olhando para isso, eu ainda não tinha um aplicativo assim. Tentei de alguma forma ajudar na solução do problema. Acredito que posso fazer a diferença.
Catarina Cavalcante Estudante e idealizadora do EduChat
Testada inicialmente em escolas do Rio de Janeiro, a plataforma apresentou resultados de melhorias no boletim escolar e na vida acadêmica de adolescentes. Os dados de acompanhamento de uma das turmas de ensino médio dessa escola mostraram evolução consistente. Todos os alunos avaliados conseguiram aumentar as médias gerais entre o 1º e o 2º bimestre, após o uso frequente do EduChat.
O aumento médio das notas foi acima de 13%. Ou seja, um aluno que antes recebia uma nota 6 no boletim, conseguiu saltar para 7 no bimestre seguinte.
Catarina revela que, apesar de a ferramenta ainda estar em projeto-piloto e aplicações iniciais, sonha em ver sua ideia integrada às escolas de todo o país.
Chegada à Corte de Lovelace
A parceria entre o EduChat e o projeto do Ifes partiu de um convite da própria reitoria do Instituto, em diálogo, também, com as Secretarias de Estado das Mulheres e da Educação, para que conhecessem a tecnologia.
A Corte de Lovelace é um projeto que incentiva meninas da rede pública, algumas em situação de vulnerabilidade social, a ingressarem nas áreas de computação, programação e robótica – predominantemente masculinas. O nome escolhido é uma homenagem à figura de Ada Lovelace, considerada a primeira programadora da história. O curso é ministrado em aulas híbridas e estágio dirigido, fase em que se aprofundam na construção de aplicativos de inteligência artificial e na qual o EduChat já está sendo aplicado.
O programa, que atende mais de mil estudantes em 12 turmas de diferentes municípios capixabas, já utilizava recursos básicos de IA para tirar dúvidas, mas, por meio da ideia de Catarina, agora obtém acesso a um sistema muito mais completo.