Sair
Assine
Entrar

  • Início
  • Artigos
  • Temos lei, fiscalização e punição: o que anda faltando no trânsito é ética
Roberto Amorim

Artigo de Opinião

É diretor-superintendente da Ecovias Capixaba
Roberto Amorim

Temos lei, fiscalização e punição: o que anda faltando no trânsito é ética

A ética não é obediência automática a regras externas, mas a internalização de valores que orientam a ação livre. Agir eticamente é agir de forma correta porque se acredita no certo, não porque se teme a sanção
Roberto Amorim
É diretor-superintendente da Ecovias Capixaba

Publicado em 14 de Maio de 2026 às 14:55

Publicado em 

14 mai 2026 às 14:55

Muitas pessoas associam a mudança de comportamento no trânsito à fiscalização, à multa e à força da lei. Mas essa atividade, embora necessária, se revela insuficiente para lidar com os números alarmantes de acidentes e óbitos nas vias brasileiras. Isso porque a ética não se confunde com coerção: ela nasce da liberdade de agir com responsabilidade, mesmo quando ninguém está olhando. Ética é escolha, não medo da punição.


No trânsito, essa distinção é crucial. O Brasil convive há décadas com números alarmantes de acidentes e mortes, apesar de um arcabouço legal robusto. Em 2024, mais de 36 mil pessoas morreram no trânsito brasileiro, segundo dados preliminares do Ministério da Saúde e do SOS Estradas, um aumento de 4,3% em relação ao ano anterior. Nas rodovias federais, foram 6.160 mortes, quase 10% a mais do que em 2023, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). 


Esses números revelam um paradoxo: temos leis, temos fiscalização, temos campanhas, mas ainda assim seguimos perdendo vidas. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) é amplamente reconhecido como uma legislação moderna, consistente e alinhada às boas práticas internacionais. 

Veja Também 

Imagem BBC Brasil

Inflação redefine o consumo e esvazia o poder das grandes marcas

13 de maio de luta: dia nacional de denúncia contra o racismo, ato na Praça Costa Pereira

Maio é mês da liberdade, mas a abolição ainda não chegou de verdade

Rotatória do sistema viário Eldes Scherrer Souza, na Serra

Serra: de cidade dormitório a cidade para se viver

Sua solidez se expressa, acima de tudo, na centralidade conferida à proteção da vida e à segurança viária, valores que se sobrepõem à fluidez do tráfego ou à conveniência do condutor, materializando-se em regras como limites de velocidade, prioridade ao pedestre, uso obrigatório de dispositivos de segurança e no combate rigoroso à combinação entre álcool e direção. 


Além disso, o CTB se destaca pela clareza e objetividade de suas normas, que definem responsabilidades de forma estruturada, evidenciando que o principal problema do trânsito brasileiro não é a ausência de regras, mas o descumprimento sistemático delas. 


Isso nos obriga a uma pergunta incômoda, porém necessária: por que as pessoas continuam assumindo comportamentos de risco mesmo sabendo das consequências?


A ética não é obediência automática a regras externas, mas a internalização de valores que orientam a ação livre. Agir eticamente é agir de forma correta porque se acredita no certo, não porque se teme a sanção. 


No trânsito, isso significa compreender que cada decisão, seja acelerar acima do limite permitido, ultrapassar, usar o celular ou desrespeitar o pedestre, carrega consequências que extrapolam o indivíduo.


As estatísticas confirmam que o problema não é apenas estrutural. Segundo dados da PRF e do Observatório Nacional de Segurança Viária, mais de 90% dos sinistros de trânsito têm como causa principal o erro humano, associado ao excesso de velocidade, à imprudência, à distração e ao consumo de álcool. Ou seja, a infraestrutura importa, a fiscalização importa, mas a decisão individual continua sendo o fator determinante.

Carro de vítima que morreu no acidente ficou destruído
Uma pessoa morta em acidente envolvendo três veículos na BR 101 no último dia 9 Divulgação/PRF

A BR 101, uma das rodovias mais importantes do país, também reflete esse cenário. Em 2024, ela esteve entre as rodovias federais com maior número de sinistros atendidos pela PRF, concentrando milhares de ocorrências ao longo do ano. 


No trecho entre o Espírito Santo e o Sul da Bahia, administrado pela Ecovias Capixaba, os dados reforçam a urgência do debate. Apenas em janeiro de 2026, foram registrados 307 acidentes, com oito mortes e 156 pessoas feridas. Os motociclistas responderam por 62% das vítimas fatais, seguidos por ocupantes de veículos leves e pedestres. 


Ao mesmo tempo, os dados mostram avanços importantes: nos dois primeiros meses de 2026, houve redução de 16,7% nas mortes em comparação com o mesmo período do ano anterior, resultado de investimentos em infraestrutura, sinalização, monitoramento e atendimento ao usuário. 


Esses avanços, no entanto, só se consolidam quando encontram condutores dispostos a agir com responsabilidade. 


É aqui que a noção de segurança defensiva deixa de ser apenas uma técnica de direção e passa a ser uma postura ética. Dirigir de forma defensiva é reconhecer a vulnerabilidade do outro, antecipar riscos, reduzir a velocidade, respeitar limites e entender que chegar alguns minutos depois é sempre melhor do que não chegar.


No pensamento ético contemporâneo, liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas assumir responsabilidade pelas consequências do que se faz. No trânsito, isso significa compreender que cada comportamento individual afeta um sistema coletivo e que a violência viária não é um acidente inevitável, mas o resultado de escolhas repetidas.


Dentro desse contexto, o movimento Maio Amarelo existe para provocar essa mudança de chave: sair da lógica do “evitar multa” e avançar para a lógica do cuidado com a vida. A campanha de 2026, cujo tema é “no trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”, dialoga diretamente com essa ética da responsabilidade, tão urgente no trânsito brasileiro. 


A transformação definitiva só acontece quando cada usuário da rodovia assume, por convicção, que segurança não é imposição, mas sim escolha. Ela só será uma realidade quando os condutores mudarem o comportamento não por medo da multa, da blitz ou da punição. 


Ao reconhecer que a lei regula, mas não transforma valores, e que o trânsito não é só jurídico, mas também ético, daremos o passo urgente de agir por consciência e por responsabilidade individual, e não por coerção. 


Assim, segurança deixará de ser um jogo de azar para se tornar uma constante nas vias brasileiras.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados