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Daniel Neri

Artigo de Opinião

É economista e cofundador da Marca Livre
Daniel Neri

Inflação redefine o consumo e esvazia o poder das grandes marcas

Com a alta dos preços, marcas próprias representam a intenção de compra 58% dos consumidores no varejo brasileiro
Daniel Neri
É economista e cofundador da Marca Livre

Publicado em 13 de Maio de 2026 às 15:15

Publicado em 

13 mai 2026 às 15:15

A inflação não muda apenas preços, mas muda comportamentos. Na prática,isso significa mudanças para quem ganha e quem perde dentro do jogo do consumo.


Dentro desse cenário, a adoção de produtos de Marca Própria no Brasil segue ganhando força: 58% dos consumidores nacionais pretendem aumentar a compra desse tipo de item ainda em 2026. Os dados são de uma pesquisa da Nielsen IQ apresentados no SIMP 2025, evento da Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização (Abmapro).


Isso corrobora o que tenho observado cada vez mais como um movimento silencioso, porém estrutural, no varejo: a ascensão das marcas próprias. Não como alternativa inferior, e sim como resposta direta a um consumidor pressionado, mais racional e menos disposto a pagar pelo “intangível” das grandes marcas.


Quando o orçamento aperta, a lógica muda. A fidelidade construída ao longo de anos de publicidade, muitas vezes embalada por jingles memoráveis, perde força diante de uma decisão mais pragmática. O consumidor deixa de comprar a marca e passa a comprar a função.


Essa transição não é trivial. Durante décadas, o valor de mercado das grandes indústrias foi sustentado justamente pela construção de marcas: campanhas, repetição, presença e memória.

Um movimento em expansão

De acordo com outro levantamento da Nielsen IQ de 2025, as vendas de produtos de Marca Própria no varejo já superam a marca de R$ 6,3 bilhões, representando um crescimento médio de 9,2% em comparação ao ano anterior. A pesquisa levou em consideração dados coletados até agosto do ano passado.

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Conforme o estudo, o canal farma representou a terceira maior alta entre os produtos de marca própria (15,5%), atrás apenas do atacarejo (23,6%) e dos supermercados regionais (20,1%). 


Esse avanço pode ser explicado pela pressão sobre itens essenciais como alimentos, energia e combustíveis, que faz com que o consumidor passa a reavaliar prioridades. Nesse contexto, ele entende cada vez mais que parte do preço pago está associada à marca, e não necessariamente à qualidade do produto.

Imagem BBC Brasil
Prateleiras dos supermercados Getty Images

Os dados e movimentos de mercado já indicam essa mudança há algum tempo. Em cenários inflacionários, cresce a participação das marcas próprias nas vendas, impulsionada pela busca por melhor custo-benefício. Mas o que antes era cíclico agora começa a ganhar contornos estruturais.


Na prática, estamos assistindo a uma inversão de lógica: o varejo deixa de ser vitrine e passa a ser protagonista. E isso tem implicações profundas, desde a cadeia de produção até as estratégias de branding das grandes empresas.


A era do jingle não acabou por falta de criatividade. Ela perdeu relevância porque o contexto econômico mudou. Hoje, quem dita o ritmo não é a música que gruda na cabeça, mas o preço que cabe no bolso. E, nessa nova lógica, vence quem entrega valor real, não apenas percepção

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