Vivemos tempos de intolerância religiosa, política, social, racial. Parece que as pessoas, mesmo as ditas cristãs ou religiosas, estão mais propensas a odiar do que a amar. Falta respeito ao diferente de si, falta empatia ao sentimento do outro, sobram agressividade e ignorância.
Interessante é que essa intolerância tem-se agravado em relação aos livros e ao ensino que se dá nas escolas, mas pouco controle se faz a outras formas muito mais graves de influência ao crescimento mental e espiritual de jovens e de crianças, como as imagens que veem por todo lado, os games violentos, que estimulam o assassinato e a solidão, as músicas de baixo nível cantadas por MCs e Anittas com danças que levam à sexualização precoce e à gravidez irresponsável, os programas de TV não adequados ao público infantil.
Isso sem falar nos sites que estimulam o suicídio, a automutilação, nos bullyings virtuais e reais, na frustração gerada pela insatisfação por uma vida vazia de sentidos e de significados.
Como escritor, tenho vivido situações que nunca esperava viver. Comecei a escrever para crianças em 1984, quando vivíamos um momento de ânsia pela democratização e luta pela liberdade, após vinte anos de ditadura. Meus livros tratavam de busca de identidade, a chave, a folha, o gato xadrez e só senti alguma repressão uma década depois, quando escrevi a história de um (a) ganso (a) apaixonado (a) por um galo. A história do Frajola mexeu com a cabeça de certos pedagogos por aqui, mas fez sucesso em São Paulo, Estado mais avançado do que o nosso.
Meu último livro, “Histórias Capixabas”, publicado neste ano, traz doze contos ou lendas sobre a cultura capixaba: Convento da Penha, Arariboia, Maria Ortiz, Vasco Coutinho, dentre outros. Escolhi para a capa uma imagem de Nossa Senhora da Penha, padroeira do Espírito Santo, que ilustra a história da criação do Convento da Penha. Agora, fui comunicado pela editora que a capa deverá ser trocada, pois nenhum símbolo religioso pode estar nos livros infantis. Pedi pra colocar a Maria Ortiz. Espero que ela lave a ignorância com água fervente.
José Arrabal, escritor capixaba que vive em São Paulo, com vários livros premiados, teve seu livro “O terrível Gosmakente”, publicado pela Paulinas, recolhido pela editora, por uma mãe ter escrito à editora protestando contra o livro. A história é uma fábula de feitio humanista sobre bichos que se opõem ao desmatamento e à destruição da floresta amazônica se unindo contra maus fazendeiros, garimpeiros e militares, além de denunciar a violência – torturas e assassinatos – aos defensores da floresta. O livro é belíssimo, foi escrito na década de 1990, mas o atual momento conservador, autoritário e repressivo não permite a leitura de obras desse tipo.
Como em épocas ditatoriais, a patrulha ideológica se instalou nas escolas, exercida por pais pouco informados, políticos inescrupulosos e pedagogos temerosos e, com isso, perde a liberdade de expressão, de criação, de publicação e de circulação da Literatura, nesses tempos sombrios de intolerância e de ignorância.