A aproximação da Copa do Mundo aquece o mercado de televisores no Brasil, principalmente entre consumidores que pretendem trocar aparelhos antigos por modelos maiores e com melhor resolução de imagem. Mas, para quem sonha em assistir aos jogos em telas gigantes, o investimento pode alcançar valores comparáveis aos de carros, motocicletas e até de imóveis.
Levantamento realizado pela reportagem de A Gazeta identificou televisores vendidos por valores entre pouco mais de R$ 2 mil e R$ 138 mil, dependendo do tamanho da tela e das tecnologias embarcadas. Os modelos premium, com mais de 100 polegadas, concentram os preços mais elevados do mercado e, em alguns casos, representam quase cinco anos da renda média mensal do brasileiro.
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio mensal dos brasileiros chegou a R$ 2.264 por pessoa em 2025, o maior já registrado pela série histórica iniciada em 2012. Na prática, uma televisão de R$ 138 mil equivale a cerca de 61 meses (5 anos) desse rendimento médio.
O valor de algumas TVs também supera o preço do metro quadrado em Vitória, capital que encerrou 2025 entre as mais caras do país no mercado imobiliário. Segundo o Índice FipeZAP, divulgado em janeiro deste ano, o metro quadrado na cidade gira em torno de R$ 14 mil. Isso significa que uma televisão de R$ 138 mil equivale a quase 10 metros quadrados de um imóvel na Capital.
Além do tamanho das telas, os aparelhos mais caros apostam em tecnologias de inteligência artificial, painéis OLED e Mini LED, taxas de atualização mais altas e sistemas de som com proposta cinematográfica. Veja alguns modelos encontrados por A Gazeta:
Modelos acima de 100 polegadas
Entre os televisores de maior porte encontrados no mercado está a Samsung Vision AI TV Neo QLED de 115 polegadas, modelo da linha premium da marca. O aparelho utiliza tecnologia Mini LED e resolução Ultra 4K, além de recursos de inteligência artificial voltados para a otimização automática de imagem e som. A televisão foi encontrada à venda por aproximadamente R$ 130 mil, valor superior ao de carros populares zero quilômetro e próximo ao custo de entrada de imóveis em algumas cidades brasileiras.
Outro modelo de grandes proporções é a TCL 115C7K, smart TV de 115 polegadas equipada com tecnologia QD-Mini LED, resolução 4K Ultra HD e taxa de atualização de 144 Hz. O aparelho foi encontrado por cerca de R$ 138 mil, ficando entre os televisores mais caros disponíveis no mercado nacional. O valor também representa uma diferença superior a R$ 136 mil em relação aos modelos mais básicos pesquisados pela reportagem.
Já em uma faixa considerada “menos exclusiva”, mas ainda voltada ao segmento de luxo, aparece a Samsung Super Big Vision AI TV de 100 polegadas. O modelo combina tecnologia Neo QLED 4K, inteligência artificial para otimização automática de imagem e som e soundbar integrada da linha premium da marca. O combo foi encontrado sendo vendido por aproximadamente R$ 53,7 mil.
Outro aparelho de grandes dimensões é a TCL C6K de 98 polegadas, equipada com painel QLED Mini LED, resolução 4K, taxa de atualização de até 144 Hz e integração com Google TV. O modelo aparece no mercado com preços entre R$ 16,8 mil e R$ 33 mil, dependendo da configuração e dos recursos embarcados.
A Samsung Crystal UHD DU9000 de 98 polegadas é outro modelo de tela gigante disponível no país. O aparelho aposta em resolução 4K, Gaming Hub, Alexa integrada e sistema de som com movimento virtual, sendo encontrado por aproximadamente R$ 20 mil.
Modelos de 77 polegadas
Na categoria das TVs de 77 polegadas, os preços sobem consideravelmente e ultrapassam os R$ 14 mil. Os aparelhos desse segmento combinam telas maiores com tecnologias voltadas para maior contraste, definição e desempenho de imagem.
Entre os modelos encontrados está a LG OLED evo C5, equipada com painel OLED de 144 Hz e recursos voltados para filmes, jogos e transmissões esportivas. O aparelho é vendido por cerca de R$ 18,7 mil, valor próximo ao preço de carros usados de entrada.
Outra opção encontrada foi o combo da LG OLED B5 de 77 polegadas com soundbar integrada, comercializado por R$ 14,6 mil.
A Smart TV LG OLED AI B5 4K 2025 está entre os modelos premium da categoria de 77 polegadas. O aparelho, equipado com inteligência artificial para otimização automática de áudio e vídeo e painel OLED de última geração, foi encontrado por valores entre R$ 21 mil e R$ 22 mil.
Já a Samsung Vision AI TV OLED 4K S90F 2025, também de 77 polegadas, é vendida por cerca de R$ 19 mil.
Modelos entre 65 e 85 polegadas
Entre os televisores de grande porte, mas abaixo da categoria considerada ultra premium, a reportagem encontrou aparelhos entre R$ 9 mil e R$ 52 mil.
Um dos destaques é a Samsung Neo QLED 8K QN800 de 85 polegadas, equipada com resolução 8K, painel de 120 Hz e conectividade avançada com wi-fi, bluetooth e múltiplas entradas HDMI e USB. O modelo é comercializado por R$ 52 mil.
Na mesma faixa de tamanho, a Samsung QLED 4K Q80C de 98 polegadas chama a atenção pelos recursos voltados para games e inteligência artificial aplicada ao processamento de imagem. O aparelho é encontrado por cerca de R$ 30 mil.
Já entre os modelos mais “acessíveis” dentro do segmento premium, aparece a Samsung Vision AI TV QLED Ultra 4K Q7F 2025 de 85 polegadas, equipada com pontos quânticos, inteligência artificial e integração com Alexa. O aparelho custa R$ 10,5 mil.
Outra televisão encontrada nessa categoria foi a Samsung Crystal UHD U8600F de 85 polegadas, comercializada por R$ 12 mil.
Na categoria OLED, a Samsung Vision AI TV OLED 4K S85F 2025 de 65 polegadas está entre os modelos premium da marca sul-coreana, sendo encontrada por R$ 9,2 mil.
Modelos de 55 a 75 polegadas
Na faixa considerada mais acessível para grande parte dos consumidores, as TVs de 55 a 75 polegadas apresentam preços entre R$ 2 mil e R$ 5 mil.
Entre elas está a Samsung Crystal UHD, encontrada por R$ 2.338. O modelo reúne resolução 4K, suporte a HDR10+ e recursos voltados para maior fluidez de imagem durante transmissões esportivas.
Outra televisão nessa categoria é a TCL P7K, equipada com tecnologia QLED, Dolby Vision e Dolby Atmos. O aparelho pode custar R$ 2.110 à vista, valor próximo da renda média mensal do brasileiro registrada em 2025.
Já a LG QNED73 aparece entre os modelos intermediários da categoria, apostando em tecnologias de aprimoramento de imagem e inteligência artificial para otimização automática de áudio e vídeo. O televisor é vendido por cerca de R$ 2,8 mil.
Entre os modelos maiores dessa faixa aparece a Samsung Crystal UHD 4K U8100F 2025 de 75 polegadas. O aparelho custa R$ 5,2 mil e reúne recursos de conectividade inteligente e integração com plataformas de streaming.
'Consumo emocional exige cautela'
Para o economista Ricardo Paixão, grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo, costumam provocar um comportamento de consumo mais emocional entre os consumidores. Segundo ele, muitas pessoas acabam associando a experiência de assistir aos jogos à necessidade de trocar a televisão por modelos maiores e mais tecnológicos.
“O primeiro cuidado é separar desejo de necessidade”, afirma o economista.
Conforme explica, antes de investir em um aparelho novo, o consumidor deve avaliar se a televisão atual já não atende às necessidades da família e se a troca não está sendo motivada apenas pelo entusiasmo do momento.
A sócia e líder da XP no Espírito Santo, Cecília Perini, reforça que o consumidor também precisa considerar o ciclo de vida do produto antes de decidir pela troca. “Televisores não ficam obsoletos de um ano para o outro. Muitas vezes, pequenas diferenças de tecnologia não justificam uma troca imediata”, destaca.
Paixão também alerta para o impacto das compras parceladas no orçamento familiar. De acordo com ele, muitos consumidores acabam focando apenas no valor mensal das parcelas e deixam de analisar o comprometimento financeiro a longo prazo.
Na mesma linha, Cecília ressalta que parcelar não significa, necessariamente, que a compra cabe no orçamento. Segundo ela, o consumidor precisa observar o impacto real da parcela nas finanças da família e evitar comprometer gastos essenciais. “Se a soma das parcelas começar a pressionar despesas básicas, como alimentação, moradia e transporte, o sinal de alerta já está aceso”, afirma.
A especialista recomenda ainda que o consumidor faça uma simulação do orçamento com a nova despesa incluída. Caso seja necessário “apertar demais” as contas ou cortar itens essenciais, a compra pode não ser sustentável financeiramente.
Outro ponto destacado pelo especialista é o chamado custo efetivo total da compra, que inclui juros, taxas embutidas e outros encargos que podem elevar significativamente o valor final do produto. Segundo ele, ofertas anunciadas como “sem juros” nem sempre representam ausência de custos adicionais.
Cecília também chama a atenção para a importância de avaliar a estabilidade da renda ao longo do período de parcelamento. “Um compromisso financeiro de longo prazo exige previsibilidade. O consumidor deve se perguntar se conseguiria manter o pagamento mesmo diante de uma emergência ou perda temporária de renda”, orienta.
Além do valor do aparelho, Paixão ressalta que o consumidor também deve considerar despesas indiretas, como contratação de internet mais robusta, assinaturas de plataformas de streaming e aquisição de equipamentos complementares para aproveitar os recursos da televisão.
“O comércio está no papel dele de seduzir o consumidor, mas é preciso cuidado para não comprometer o orçamento familiar por conta de decisões precipitadas”, pontua.
Para Cecília Perini, educação financeira vai além da capacidade de comprar. “Educação financeira é menos sobre poder comprar e mais sobre conseguir sustentar essa decisão ao longo do tempo sem prejudicar a saúde financeira da família”, conclui.
Mesmo entre modelos considerados menores dentro do segmento premium, os valores ainda representam investimentos altos para grande parte dos consumidores brasileiros. Uma televisão de R$ 19 mil, por exemplo, equivale a mais de oito meses da renda média mensal registrada no país em 2025.