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Recidiva

Morte do cantor Netinho: por que o linfoma pode voltar?

Ela pode acontecer quando células cancerígenas permanecem no organismo em níveis não detectáveis pelos exames e, posteriormente, voltam a se multiplicar

Publicado em 13 de Outubro de 2026 às 15:20

Guilherme Sillva

Publicado em 

13 out 2026 às 15:20
Cantor Netinho
Netinho morreu após um câncer no sistema linfático Reprodução @netinhooficialbrasileiro

Nesta terça-feira, 13 de outubro, o cantor Netinho, de 68 anos, morreu após um câncer no sistema linfático, também conhecido como linfoma. 


No ano passado, o cantor precisou ser hospitalizado após sentir fortes dores nas costas e perder os movimentos das pernas. Com histórico de complicações de saúde, como três cirurgias no cérebro, colocação de quatro stents e três AVCs sofridos em 2013, Netinho conviveu ainda com uma válvula cerebral permanente.


No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que para cada ano do triênio 2026-2028 sejam diagnosticados 3.070 casos de linfoma de Hogdking e 12.560 de linfoma não Hodgking. E, segundo a entidade, por motivos ainda desconhecidos, o número duplicou nos últimos 25 anos, principalmente entre pessoas com mais de 60 anos.


De acordo com uma pesquisa feita pelo Observatório de Oncologia, entre 2008 e 2017, foi mostrado que o linfoma costuma ser diagnosticado tardiamente no Brasil. Cerca de 58% dos pacientes descobrem a doença em estágio avançado e 60% dos homens e 57% das mulheres têm um diagnóstico tardio. 

O que é esse tipo de tumor?

De forma simplificada, os linfomas podem ser classificados como Hodgkin, mais raro e que afeta em especial jovens entre 15 e 25 anos e, em menor escala, adultos na faixa etária de 50 a 60 anos, ou não-Hodgkin, cujo grupo de risco é composto por pessoas na terceira idade (mais de 60 anos). Para Mariana Oliveira, onco-hematologista da Oncoclínicas, apesar de não haver prevenção por desconhecimento do que leva ao surgimento da neoplasia, a chave para deter a evolução progressiva do tumor é o conhecimento. "A boa notícia é o fato de os linfomas terem alto potencial curativo. O diagnóstico precoce é fundamental para alcançar o êxito no processo terapêutico, por isso o esclarecimento à população é essencial", afirma.


Os sintomas em geral são aumento dos gânglios linfáticos (linfonodos ou ínguas, em linguagem popular) nas axilas, na virilha e/ou no pescoço, dor abdominal, perda de peso, fadiga, coceira no corpo, febre e, eventualmente, pode acometer órgãos como baço, fígado, medula óssea, estômago, intestino, pele e cérebro.


"As duas categorias - Hodgkin e não-Hodgkin -, contudo, apresentam outros subtipos específicos, com características clínicas diferentes entre si e prognósticos variáveis. Por isso, o tratamento não segue um padrão, mas usualmente consiste em quimioterapia, radioterapia ou a combinação de ambas as modalidades", explica Mariana Oliveira.


Em certos casos, terapias alvo-moleculares, que tem como meta de ataque uma molécula da superfície do linfócito doente, podem ser indicadas. "Estas proteínas feitas em laboratório atuam como se fosse um ‘míssil teleguiado’ - que reconhece e destrói a célula cancerosa do organismo", ressalta o médico. Ainda, dependendo da extensão dos tumores e eficácia das medicações, pode haver a indicação de transplante de medula óssea.

O que pode tornar a doença mais grave?

O retorno da doença, como ocorreu no caso de Netinho, é chamado de recidiva. Ela pode acontecer quando células cancerígenas permanecem no organismo em níveis não detectáveis pelos exames e, posteriormente, voltam a se multiplicar. O risco varia conforme o subtipo, as características biológicas da doença e a resposta ao tratamento inicial.


Por isso, mesmo após a remissão, o acompanhamento médico continua sendo fundamental. E uma recidiva não significa, necessariamente, que as possibilidades terapêuticas tenham se esgotado. “Quando a doença retorna, fazemos uma nova avaliação para entender seu comportamento e definir quais tratamentos podem ser utilizados. Hoje existem diferentes alternativas, mas a indicação depende das características de cada caso”, afirma Eduardo Cilião Munhoz, especialista em Hematologia e Oncologia Clínica do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP).


Entre as possibilidades estão novas combinações de medicamentos, quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, transplante de células-tronco hematopoéticas e, para pacientes que atendam a critérios específicos, terapias celulares como a CAR-T.

Intertítulo

Para o médico, identificar o subtipo é fundamental para compreender o comportamento da doença. “O linfoma não Hodgkin não tem um comportamento único. Existem formas de crescimento mais lento e outras que podem evoluir rapidamente. Por isso, precisamos conhecer o subtipo, a extensão da doença e as condições clínicas do paciente. Essas informações fazem toda a diferença na escolha da melhor estratégia terapêutica.”


Um dos sinais mais frequentes é o aumento dos linfonodos, popularmente conhecidos como gânglios, especialmente no pescoço, axilas e virilhas, muitas vezes sem dor. Febre persistente sem causa aparente, suor noturno intenso, cansaço excessivo e perda de peso involuntária também podem ocorrer. Dependendo da região afetada, a doença pode provocar ainda sintomas respiratórios e desconforto abdominal.


Esses sinais não significam necessariamente câncer. Gânglios aumentados são comuns, por exemplo, em processos infecciosos. A atenção deve aumentar quando a alteração persiste ou progride. “Um gânglio aumentado não significa automaticamente um linfoma. O que merece atenção é quando esse aumento persiste, cresce progressivamente ou vem acompanhado de febre sem explicação, suor noturno intenso e perda de peso. Nesses casos, é importante procurar avaliação médica”, orienta Cilião.


 A evolução depende principalmente do subtipo, da velocidade de crescimento, da extensão da doença, dos órgãos envolvidos, da resposta ao tratamento e das condições gerais de saúde do paciente. Uma distinção importante é que agressividade não significa necessariamente pior resposta ao tratamento. Há linfomas agressivos que respondem bem à terapia e podem ser curáveis, enquanto algumas formas de crescimento lento podem permanecer controladas por anos, mas apresentar recorrências.


“Não podemos definir o prognóstico apenas pela palavra linfoma. Existem formas que crescem rapidamente e respondem muito bem ao tratamento e outras que evoluem lentamente e podem exigir acompanhamento por muitos anos. Cada caso precisa ser avaliado individualmente”, explica o especialista.


O tratamento é definido a partir dessa identificação e pode envolver quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, radioterapia e outras estratégias, isoladas ou combinadas. Em alguns linfomas de evolução lenta e sem sintomas relevantes, o acompanhamento clínico antes do início de uma terapia também pode ser uma conduta adotada.


“O conhecimento sobre os linfomas avançou muito nos últimos anos, permitindo tratamentos cada vez mais direcionados às características da doença. O mais importante é ter um diagnóstico preciso, acompanhamento especializado e acesso à estratégia terapêutica adequada”, finaliza Eduardo Cilião Munhoz.

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