Stephany Pim aparece na sala de sua casa, em Vitória, usando uma chemise branca de linho, pés descalços e sorriso no rosto — maquiagem feita por ela mesma. É uma quarta-feira de agosto, início de tarde, quando ela escolheu receber A GAZETA para uma entrevista exclusiva. É a primeira vez que a empresária e Miss ES fala sobre os dias em que ficou internada na UTI após descobrir uma mastite, que quase ocasionou uma infecção generalizada. 'Foi o momento mais difícil da minha vida', conta.
A mastite é um processo inflamatório agudo ou crônico do tecido mamário, de causas diversas e, na maioria das vezes, de etiologia bacteriana. "Clinicamente, observamos sinais de inflamação como dor, calor e vermelhidão, de intensidade variada, podendo evoluir para casos mais complicados, como abscessos e infecções sistêmicas", explica a mastologista Karolline Coutinho Abreu Vilela, da Rede Meridional.
Entre os sinais da doença estão dor, calor, vermelhidão, edema cutâneo, inchaço local e presença de ínguas. Nos casos mais complicados, são observados sinais sistêmicos, como febre, desânimo e taquicardia.
No caso de Stephany, a médica conta que a equipe presenciou uma mastite puerperal bacteriana complicada. "Teve uma importante repercussão sistêmica, que exigiu intervenção cirúrgica, antibioticoterapia endovenosa de amplo espectro e suporte clínico intensivo", diz Karolline Coutinho.
Nasceu para brilhar
Nascida e criada em Vitória, a capixaba — filha do sertanejo André Luiz da Silva, o Laion — sempre sonhou com uma carreira artística. Em 2014, Stephany interrompeu a graduação em Engenharia de Produção, em Campos dos Goytacazes, para voltar a Vitória e se dedicar à música, mas acabou se envolvendo com os concursos de beleza.
Com 1,71 metro de altura, foi eleita Miss Espírito Santo 2017 e conquistou o 3º lugar no Miss Brasil do mesmo ano. "Cresci muito nesses anos e ganhar com tanta gente acreditando em mim fez a diferença", disse na época. Fluente em inglês e espanhol, fez curso de teatro com Wolf Maya e sempre teve a oratória como um de seus trunfos.
Neta de comerciantes, em 2021 ela comandou um negócio em Vitória que reunia salão de beleza, bar e cafeteria. Agora, trabalha em parceria com o marido. Aos 32 anos, mãe de Valentim e Vittorio, ela fala sobre o problema de saúde que começou na mama direita, o motivo pelo qual precisou fazer o explante de silicone das duas mamas, os dias em que ficou na UTI e a saudade que estava de casa. "Não via a hora de tomar um açaí".
No dia 07 de julho, um mês após você ganhar o seu segundo filho, você foi internada. O que você lembra desse dia?
Me recordo de que estava sentindo dor e mal há muitos dias. Minha família estava superangustiada, porque eu já tinha feito muitos exames. E o último exame trouxe uma resposta: eu estava com uma mastite na mama direita. A gente imaginou que poderia ser uma eclampsia pós-parto, puerperal, mas mal podia imaginar que, mesmo depois de fazer tratamento com antibiótico intravenoso durante sete dias na internação anterior, iria voltar para o hospital e a situação estaria ainda pior.
Você sentia muitas dores?
Meu filho nasceu no dia 5 de junho e, no dia 12, uma semana depois, comecei a sentir uma dor muito forte e um mal-estar, como se estivesse com dengue. Era uma dor tão grande que a minha mama direita começou a inchar sem parar, a ponto de parecer que ia explodir. Dias depois, parecia até que a prótese tinha encapsulado. Não sei se alguém já teve esse problema com silicone na mama, mas senti a prótese extremamente dura, inflexível, e não conseguia mexer no silicone. Já no hospital, esse era o quadro: parecia uma inflamação de mastite, que costuma ocorrer pela lactação, mas eu tive uma hiperlactação.
E se sentiu culpada por reclamar das dores?
Eu me sentia culpada e mal por falar que estava com dor, por estar no puerpério e com um bebê dentro de casa. E acho que esse é outro alerta que deixo para as mamães ou mulheres que, às vezes, negligenciam as dores que estão sentindo, por não quererem parecer chatas ou ficar reclamando — afinal, são tantas preocupações. Eu tinha um bebê recém-nascido, que não dormia, e a mãe dele estava em uma situação na qual nem conseguia existir. Tinha a sensação de que essa mastite não havia sido curada. Mas o diagnóstico era muito pior.
Era o quê?
Fui operada às pressas porque estava à beira de uma sepse, uma infecção generalizada. Eu estava com uma bomba-relógio
Stephany Pim Empresária e Miss ES
Sua situação era grave....
A minha situação era grave. A infecção foi piorando por dentro e causando outros problemas de saúde e dores, com todos os sintomas clínicos de quem estava praticamente em uma infecção generalizada. Os médicos me olhavam e o que eu mais ouvia era: 'Nossa, eu nunca vi isso em uma prótese'; 'Nunca vi isso em uma puérpera'. Foi algo muito diferente do que acontece na maioria dos casos.
Você teve que ficar longe do seu filho recém-nascido durante um mês. Como você recebeu essa notícia?
Quando me internei, não o levei porque tinha ido apenas para fazer exames. Tinha saído de casa somente para fazer o ultrassom do abdômen e da mama, e não saí mais do hospital. Quando me internaram, a gente ainda não sabia o que estava acontecendo. Num primeiro momento, eu nem imaginava que passaria por tudo o que vivi. Quando os médicos viram o problema, me falaram que eu teria que ficar sem ver o bebê porque estava com uma infecção muito séria, e que também precisaria tomar um remédio para secar o leite. (Dias depois da alta hospitalar, Stephany ainda estava com leite nas mamas).
Ouvir dos médicos que teria que abrir mão de amamentar seu filho foi um dos dias mais difíceis de sua vida?
Recebi de uma vez só as notícias de que não poderia amamentar e nem ficar com ele. Eu pensava se ele iria sentir minha falta, como seria quando eu voltasse e se iriam cuidar dele do jeito que eu tinha planejado. Sem dúvida, foram os dias mais difíceis da minha vida. As mães sabem o quanto amamentar é gostoso, mas também o quanto é difícil — eu acho que amamentar é muito mais doloroso do que parir, porque o parto tem hora para acabar. Como na minha primeira gravidez não consegui me dedicar exclusivamente à amamentação, eu tinha idealizado esse momento desta vez, para viver o puerpério em paz.
Tive medo de não poder pegá-lo no colo, de não conseguir fazer movimentos com os braços, da dor e da recuperação. Toda vez que o problema piorava, eu pensava em quanto tempo aquilo ainda ia demorar para acabar
Stephany Pim Empresária e Miss ES
Você foi levada à UTI com o diagnóstico de um derrame pleural bilateral. É solitário ficar na UTI?
Foi muito difícil, especialmente porque não pude receber meus filhos. A cada dia que passava, me sentia mais distante deles e ficava mais desesperada. Era muito difícil... Foi complicado administrar a saudade e a falta das crianças. Eu tinha preparado lembrancinhas, tinha preparado pipoquinhas para as pessoas me visitarem. Ninguém soube, eu simplesmente desapareci.
Você teve medo de morrer?
Eu não me recordo de ter sentido medo de morrer. Mas duas coisas aconteceram que parecem uma experiência de quase morte. Na primeira, lembro-me de ter visto um caminho de luz e alguém me chamando, como se eu realmente fosse morrer ali. Também senti a presença muito forte de uma mão segurando a minha mão direita.
Você já está curada ou ainda está fazendo algum tratamento?
Ainda estou tomando antibióticos, porque a infecção realmente foi muito séria. A infectologista pediu para que eu continuasse o tratamento por 30 dias. E é natural sentir algumas sequelas, como a perda de um pouco do equilíbrio. Tenho sentido dificuldade para voltar à vida real. Sinceramente, você vê que a vida das pessoas continua sem você, e aí começa a perceber e a dar menos importância para coisas insignificantes. É muito profundo tudo isso que aconteceu.