A causa da morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, foi identificada como cardiomiopatia hipertrófica. Trata-se de uma doença genética que afeta o músculo do coração. A informação consta no atestado de óbito atleta, encontrado sem vida no apartamento onde morava, na Mooca, zona leste de São Paulo, no último sábado (23). A Cardiomiopatia hipertrofia é uma patologia presente em uma a cada quinhentas pessoas, ou 0,2% da população.
Geralmente de origem genética, as alterações cardíacas desenvolvidas nos portadores podem acarretar desestruturação do músculo cardíaco, assim como espessamento das paredes de arteríolas cardíacas que nutrem o músculo levando a isquemia deste músculo. "Principalmente em atividades físicas que aumentam a demanda por oxigênio, que vai estar com a oferta diminuída pela hipertrofia destas artérias, como também pela menor elasticidade das mesmas não permitindo aumento do fluxo de sangue", explica o cardiologista Jerônimo Vervloet, da Bluzz Saúde.
A patologia de origem genética é causa de morte súbita nos atletas de alta performance.
"Mas, mesmo em indivíduos que não herdaram as mutações para desenvolverem esta patologia, podemos encontrar formas potencialmente graves de hipertrofia do músculo cardíaco, adquiridas por condições desenvolvidas durante a vida", diz o médico.
Entre estas condições podemos ter a hipertensão arterial, as patologias das válvulas cardíacas, a diabetes e o uso de esteroides anabolizantes. "Nos pacientes hipertensos, esta hipertrofia ocorre cronicamente quando a pressão arterial não é adequadamente tratada, acarretando inicialmente fibrose do músculo e posteriormente levando a um quadro de insuficiência cardíaca. Também aumenta o risco de arritmias cardíacas".
Da mesma forma, níveis altos de glicose no sangue por períodos crônicos, levam a um quadro de estresse oxidativo liberando radicais livres que danificam as células do músculo provocando espessamento com fibrose e posteriormente levando a distensão do coração, quadro chamado de insuficiência cardíaca.
Embora a cardiomiopatia hipertrófica seja uma doença de origem predominantemente genética, alguns hábitos e substâncias podem aumentar significativamente a sobrecarga cardiovascular e agravar condições já existentes.
Segundo a cardiologista Fernanda Weiler, do hospital Sírio Libanês de Brasília, é importante separar a desinformação de evidências científicas quando o assunto envolve anabolizantes e saúde do coração. “A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética e o uso de anabolizantes não é considerado a causa direta do diagnóstico. No entanto, essas substâncias podem aumentar o risco cardiovascular, favorecer arritmias, elevar pressão arterial e gerar uma sobrecarga importante no músculo cardíaco”, explica.
A médica ressalta que muitos jovens associam aparência física à ideia de saúde, o que pode mascarar riscos importantes. “Ter um corpo musculoso ou um baixo percentual de gordura não significa necessariamente que o coração esteja saudável. O sistema cardiovascular pode estar sofrendo silenciosamente”, afirma.
De acordo com Fernanda, o uso frequente e sem acompanhamento médico de esteroides anabolizantes está associado a complicações como hipertensão, alterações do colesterol, aumento do risco de infarto, insuficiência cardíaca e arritmias potencialmente fatais. “Os anabolizantes podem promover alterações estruturais no coração, incluindo aumento do músculo cardíaco. Em pessoas que já possuem predisposição genética para doenças cardíacas, isso pode representar um fator adicional de risco”.
A especialista destaca ainda que muitos pacientes desconhecem condições cardíacas pré-existentes, já que algumas doenças podem permanecer assintomáticas durante anos. “Em alguns casos, o primeiro sintoma pode ser justamente um evento grave. Por isso, avaliações cardiológicas periódicas são fundamentais, especialmente em pessoas submetidas a treinos de alta intensidade ou que utilizam substâncias para melhora estética e performance”, alerta.