O consumo de batata frita é um hábito comum. Mas que pode vir cercado de dúvidas como: afinal, um dos petiscos favoritos do mundo pode causar câncer?
De acordo com o oncologista Raphael Brandão, Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, a preocupação principal não é a batata em si, mas uma substância chamada acrilamida. Ele se forma naturalmente quando alimentos ricos em amido (como a batata e o pão) são submetidos a altas temperaturas — acima de 120°C —, seja ao fritar, assar ou grelhar.
Essa substância se forma através da "Reação de Maillard", que ocorre quando alimentos ricos em amido são submetidos a temperaturas superiores a 120ºC. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classifica a acrilamida como um provável carcinógeno humano (Grupo 2A).
Segundo o Relatório sobre Carcinógenos do Programa Nacional de Toxicologia dos EUA, a acrilamida pertence ao grupo 2A, classificada como “carcinógenos prováveis” com base em estudos em animais de laboratório que receberam acrilamida na água potável. No entanto, estudos toxicológicos demonstraram que os seres humanos e os roedores não só absorvem a acrilamida em taxas diferentes, como também a metabolizam de forma diferente.
"Embora estudos definitivos em humanos ainda sejam complexos, em modelos animais a substância demonstrou capacidade de danificar o DNA. O risco é cumulativo e depende da frequência e da quantidade de exposição ao longo da vida", explica.
Pelo ponto de vista nutricional, o impacto do consumo frequente de batatas fritas especialmente as ultra processadas e as comercializadas em redes de fast-food, vai além da acrilamida.
Isso porque o excesso de calorias, sódio e gorduras, associado a um padrão alimentar desequilibrado, pode favorecer ganho de peso e alterações metabólicas. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a obesidade está associada ao aumento do risco para diferentes tipos de câncer, além de outras doenças crônicas.
“Nenhum alimento isoladamente determina o desenvolvimento de câncer. O problema está no consumo frequente e excessivo dentro de uma rotina alimentar desequilibrada. Quando consumidas em excesso, batatas fritas podem contribuir para processos inflamatórios, aumento da ingestão calórica e prejuízos metabólicos”, explica a nutricionista Ana Paula Leal da Costa.
Ela também ressalta que fatores como tipo de óleo, reutilização da gordura e escurecimento excessivo durante o preparo podem aumentar a formação de compostos potencialmente prejudiciais.
Dicas para uma batata frita mais saudável
A nutricionista dá algumas orientações para quem não quer excluir a batata do cardápio:
Observe a cor da batata: Prefira batatas fritas ou assadas com coloração amarelo-dourada. Evite partes muito escuras ou queimadas, que concentram maiores níveis de acrilamida.
Deixe as batatas de molho antes do preparo: Manter as batatas em água por cerca de 30 minutos antes do preparo ajuda a reduzir parte dos açúcares livres responsáveis pela formação da acrilamida.
Armazene corretamente: Evite guardar batatas cruas na geladeira. O frio aumenta a concentração de açúcares, favorecendo a formação da substância durante a fritura. O ideal é armazená-las em local fresco, seco e arejado.
Prefira métodos alternativos de preparo: Preparações no forno ou na Air Fryer podem ser alternativas interessantes, desde que o tempo e a temperatura sejam controlados para evitar escurecimento excessivo.
“Uma porção ocasional de batata frita, preparada adequadamente e inserida em um contexto de alimentação equilibrada, não deve ser encarada como um problema. O mais importante é a frequência de consumo e a qualidade global da dieta”, conclui a nutricionista.