> >
ES faz primeiro transplante de fezes para combater superbactéria em idoso

ES faz primeiro transplante de fezes para combater superbactéria em idoso

Procedimento foi feito em setembro, no Hucam, e beneficiado foi homem de 69 anos que tinha infecção intestinal grave e recebeu material fecal de um doador

Publicado em 6 de novembro de 2019 às 06:03

Ícone - Tempo de Leitura 0min de leitura
Transplante de fezes: ilustração mostra como seria a transferência da chamada microbiota fecal de um intestino saudável para outro doente. (Shutterstock)

Milhares de transplantes de órgãos são feitos no mundo todo diariamente, salvando a vida de inúmeras pessoas. Nem sempre viram notícia. Mas um em particular, realizado no Estado há pouco mais de um mês merece destaque por ser inédito por aqui e inusitado ainda em qualquer lugar: o transplante de fezes.

Isso mesmo que você leu. As fezes de um doador saudável foram transferidas para um indivíduo doente. O procedimento foi feito no Hospital Cassiano Antônio Moraes (Hucam), em Vitória. O paciente, no caso, era um homem de 69 anos que sofria de vários males, entre eles um problema intestinal grave.

O idoso foi a primeira pessoa no Espírito Santo a passar por esse tipo de tratamento, que ainda tem ares de novidade no país. O primeiro transplante fecal foi realizado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, em 2013. De lá para cá, poucos como esse se repetiram.

O alvo do tratamento é uma superbactéria chamada Clostridium difficile, que causa uma infecção intestinal grave e é resistente a medicamentos convencionais. Segundo especialistas, o transplante de fezes se mostrou eficaz em 90% dos casos.

Embora na Internet o transplante de fezes apareça como solução para várias doenças, de síndrome de intestino irritável, passando pela obesidade até o autismo, a técnica só está aprovada mesmo para uma indicação: o combate ao tal Clostridium difficile.

O PACIENTE

Com um quadro de diarreia líquida que durava três semanas, devido a uma colite causada por essa bactéria, o idoso internado no Hucam foi escolhido para o experimento, que reuniu uma equipe oito especialistas da gastroenterologia do Estado, entre médicos e residentes.

“Esse senhor sofria de uma cirrose hepática já avançada, causada pelo uso abusivo de bebida alcoólica. Tinha ainda ascite, que é conteúdo líquido abdominal, e tinha antecedente de hemorragia digestiva alta, além de um câncer, que se originou na cirrose hepática”, diz a médica gastroenterologista e endoscopista Thaisa de Moraes Ribeiro Espírito Santo.

Segundo ela, o paciente havia sido internado com uma hemorragia digestiva alta e começou a receber a terapia com antibióticos. Foi quando começou a desenvolver a diarreia.

O transplante da microbiota fecal surgiu como possibilidade. “Primeiro, conversamos com a família, já que o paciente não estava respondendo ao tratamento convencional”, relata Thaisa.

PESQUISAS

Apesar do carácter inédito do procedimento por aqui, a expectativa era grande. Afinal, o transplante da microbiota fecal já teve resultados positivos comprovados em estudos internacionais.

“Em 2013, foi publicado no New England Journal of Medicine, que é uma revista de muito peso na medicina, um estudo mostrando como foi bem sucedido o tratamento com transplante de microbiota fecal para pacientes refratários ou recidivantes por essa infecção intestinal pelo Clostridium difficile”, cita a médica.

Aspas de citação

Esse senhor sofria de uma cirrose hepática já avançada, causada pelo uso abusivo de bebida alcoólica. Tinha ainda ascite, que é conteúdo líquido abdominal, e tinha antecedente de hemorragia digestiva alta, além de um câncer, que se originou na cirrose hepática

Thaisa de Moraes Ribeiro Espírito Santo
Médica gastroenterologista que participou do transplante de fezes no Estado
Aspas de citação

Nesse artigo, de acordo com Thaisa, foram formados três grupos de pacientes. O primeiro fez tratamento com um medicamento chamado Vancomicina, numa dose de 500mg, de 6 em 6 horas, via oral, seguido de lavagem intestinal. E no dia seguinte, foi feito o transplante de microbiota fecal através de uma sonda nasogástrica.

No segundo grupo, foi feito apenas o uso de vancomicina oral. E no terceiro grupo, além do uso desse mesmo antibiótico, foi feita a lavagem intestinal.

“O estudo teve que ser interrompido porque ele mostrou um benefício muito grande no grupo que passou pelo transplante de microbiota fecal. E o estudo, que era randomizado, teve que ser aberto pela grande diferença estatística em benefício do transplante fecal”, comenta ela.

Thaisa explica que a infecção pelo Clostridium difficile tem uma chance de se tornar recorrente em de 15 a 20% dos pacientes. É uma chance até alta. E depois da primeira ocorrência, a chance de o paciente obter um tratamento com sucesso apenas com antibiótico é de 60%. Ou seja, 40% voltam a ter a infecção.

“No estudo, dos 16 pacientes que receberam o transplante de microbiota fecal, 13 pacientes, ou seja, 81%, tiveram melhora, o que foi classificado como ausência de recidiva por 10 semanas. Uma resposta muito boa. Os três que não responderam foram submetidos a um segundo transplante com material de doadores diferentes. E dois tiveram cura da infecção pelo Clostridium. Dos pacientes que só receberam o antibiótico, sem a lavagem intestinal, só 31% responderam. E o grupo que foi tratado com antibiótico e com lavagem intestinal, só 23% responderam”, descreve.

A DOAÇÃO DO MATERIAL

Equipe médica preparando material para transplante de fezes no Hucam(Divulgação)

O fato é que o idoso internado no Hucam precisava de um doador de material fecal. Diferentemente dos demais transplantes, nesse não é tão difícil encontrar um doador compatível.

“Como não existe um banco de doadores de microbiota fecal aqui no Estado, foi solicitado que um membro da família fosse doador. Esse membro não poderia ter tido contato com o paciente durante a internação e teria que ter um hábito intestinal classificado como normal. Ele teria ainda que ser submetido a alguns exames, tantos de sangue, para avaliar sorologias como de sífilis, HIV, hepatite e outras mais, e também exames fecais, como exame parasitológico, pesquisa de toxinas nas fezes...”, elenca a gastroenterologista.

O TRANSPLANTE

Dia 17 de setembro, às 13h45, dia do transplante. Enquanto o paciente era preparado para o procedimento, outra etapa era realizada em paralelo: a preparação das fezes, que haviam chegado frescas ao hospital.

O gastroenterologista Felipe Bertollo, da Santa Casa de Misericórdia, estava na equipe e coordenou essa fase, que consistia em diluir as fezes em cerca de 300 ml de soro fisiológico e depois coá-las, retirando as parte mais sólidas. Para isso, foram usadas compressas médicas mesmo, como as gazes.

Depois, as fezes foram colocadas em frascos de solução enteral para, então, serem injetadas na sonda nasoentérica que estava no paciente. Por ali, as fezes foram infundidas de forma lenta, numa operação que durou em torno de 2 horas.

A técnica em si é simples, como observa a gastroenterologista Thaisa Ribeiro. A infusão pode ser tanto por sonda ou via colonoscopia, pelo ânus. "O paciente pode ter alimentação normal após o transplante, não tem nenhuma restrição. A resposta é medida pela melhora clínica".

A médica destaca que, durante o processo, o paciente poderia ter tido alguns efeitos colaterais, como febre, náusea, calafrios, vômito. Mas ele não sentiu nada. “A gente teve o cuidado de cobrir o recipiente da dieta enteral, até para evitar o constrangimento do paciente. Mas foi um procedimento muito bem sucedido”, comenta ela.

Aspas de citação

A gente teve o cuidado de cobrir o recipiente da dieta enteral, até para evitar o constrangimento do paciente. Mas foi um procedimento muito bem sucedido

Thaisa Ribeiro
Médica gastroenterologista
Aspas de citação

RESULTADO

Segundo a dra. Thaisa, estudos mostram que a resposta ao transplante da microbiota fecal se dá entre 36 e 72 horas após a infusão. No caso do idoso, no dia seguinte ao procedimento ele já começou a ter uma diminuição das fezes, que começaram a ficar mais pastosas e com uma frequência menor, de duas a quatro vezes ao dia, em vez das dez vezes diárias que vinham ocorrendo.

No entanto, três dias depois, a diarreia líquida voltou com as mesmas características de antes. "Esse paciente seria classificado como 'não respondedor' e poderia ter sido submetido a um segundo transplante de um doador diferente. No estudo publicado na New England, um dos critérios de exclusão seria se o paciente tivesse comorbidades com uma expectativa de vida menor que três meses. Talvez esse paciente se enquadrasse nessa expectativa de vida. Mas ele estava com um quadro de diarreia tão importante, consumindo tanto o estado geral, que a gente o incluiu e tentou tratar", explica a especialista.

Não houve tempo hábil para isso. O paciente, de 69 anos, acabou falecendo dez dias depois do transplante. Segundo Thaisa, ele uma hemorragia digestiva alta pela segunda vez, ou seja, mesmo motivo da internação interior, um mês antes do transplante.

Apesar de não ter conseguido salvar o idoso, a equipe vê a experiência de forma muito positiva. "O procedimento possibilitou um enorme aprendizado para a instituição. A gente viu que tecnicamente é possível fazer o transplante fecal, caso apareça um novo caso de paciente com Clostridium recidivante ou refratário ao tratamento”, diz a gastroenterologista do Hucam.

"Quanto mais rica nossa microbiota fecal, melhor ela é", diz médico 

Transplante de fezes: ilustração mostra intestino. (Pixabay)

Ao ler esta reportagem você pode ter se perguntado: como algo que é excretado por um ser humano pode ser útil e benéfico a outro? A resposta é simples. E, ao mesmo tempo, não.

O gastroenterologista Felipe Bertollo, que se especializou em microbiota fecal, diz que a ciência tem se debruçado cada vez mais sobre esse tema. Sim, os centros de pesquisas mais importantes do mundo estão interessados no seu cocô.

Aspas de citação

Nosso intestino é composto por trilhões de bactérias. E só conhecemos 20% delas. As demais, não sabemos o que fazem ali, qual a função delas. São um mistério

Felipe Bertollo
Médico gastroenterologista que participou do transplante de fezes no Estado
Aspas de citação

"Nosso intestino é composto por trilhões de bactérias. E só conhecemos 20% delas. As demais, não sabemos o que fazem ali, qual a função delas. São um mistério. Mas já se sabe que as bactérias regulam muito mais coisas do que a gente pode imaginar. A gente vem enfrentando uma enxurrada de teorias de que o intestino está o tempo inteiro expondo o corpo a novas bactérias, estimulando o sistema de defesa dele. Doenças cuja causa não se sabe ainda podem ter a ver com essa interação. Assim como doenças que não existiam antigamente podem ser associadas a essas bactérias intestinais", observa Bertollo.

Este vídeo pode te interessar

Segundo o médico, o que é possível afirmar é que quanto mais rica a microbiota intestinal, melhor ela é. "No caso do idoso que passou pelo transplante aqui no Estado, o intestino dele tinha que ser repovoado. Ou, como nós médicos dizemos, recolonizado por bactérias diferentes.

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais