Em 1994, quando criamos o Programa de Pós-Graduação em Letras da Ufes, pensávamos em criar um programa focado nos escritores capixabas e em nossa literatura. Não conseguimos. A Capes achou nosso projeto inconsistente, por falta de “massa crítica”. O programa foi refeito e, hoje, é muito bem avaliado, fazendo o mais do mesmo. Menos de 10% de suas dissertações e teses enfocam obras e autores do Espírito Santo. Nossa memória literária é uma vaga lembrança.
Semana passada, estive em Belo Horizonte, na PUC-MG, participando de uma banca de doutorado de uma tese sobre Achilles Vivacqua (1900-1942), escritor capixaba nascido em Muniz Freire. Ele foi um pioneiro do Modernismo, no Brasil, e seu livro “Serenidade”, lançado em 1928, foi a primeira obra modernista publicada lá e cá. Não existe nenhum exemplar em nossos arquivos. O único encontrado pertence ao Arquivo de Escritores Mineiros da UFMG. Achilles foi para BH tratar-se de tuberculose. Morreu cedo, mas deixou vasta obra espalhada em revistas de sua época, inclusive nas nossas “Vida Capixaba” e “Canaã”.
Também em 1928, ocorreu a morte de Maria Antonieta Tatagiba (1895-1928), a única mulher Patrona em cadeira da Academia Espírito-santense de Letras, a de nº 32. Foi a mais importante poetisa de sua geração e publicou um único livro de poesias, em 1927, “Frauta Agreste”, muito apreciado pelo público e pela crítica. Maria Antonieta era de São Pedro de Itabapoana e também morreu de tuberculose. É a única mulher biografada na antologia “Poetas Capixabas”, de José Victorino, em 1934.
Outro escritor capixaba esquecido é o jornalista e diplomata Newton Freitas (1909-1996), grande amigo de Rubem Braga, que o tratava pelo apelido, Zico. Newton foi casado com a também escritora Lídia Besouchet e saíram do Brasil na década de 1930, fugidos da perseguição varguista. Viveram na Argentina e depois na Bélgica, Inglaterra, México, Argélia, França e Espanha. Newton Freitas nasceu em Vitória e é irmão do Wilson Freitas, esportista que dá nome ao ginásio da Praia do Suá. Escreveu os seguintes livros: “Maracatu: motivos típicos e carnavalescos”, “Cantos e lendas brasileiras”, “Jaburuna: contos e relatos”, entre outros. Nenhum desses livros pode ser encontrado em nossos arquivos. Ainda atual, seu texto foi publicado na revista “Manchete”, em 1959: “O Espírito Santo tem sempre aquele ar de parente pobre da federação. Não tem arrogância, e tranca seu orgulho numa ironia fina que faz do capixaba um ser cético, descrente das grandes batalhas, incerto de suas vitórias, inseguro nas suas campanhas. Creio que essa psicologia foi a que escolheu - “Trabalha e confia” -, e foi a mesma que manteve o meu Estado fora dos grandes atropelos revolucionários. A influência do Norte levou-o a oferecer seu herói – Domingos Martins – a Pernambuco. Guardou para si mesmo a figura de uma mulher – Maria Ortiz – e deixou que seu santo Anchieta fosse quase que adotado por São Paulo”.
*O autor é professor e escritor